Publico abaixo algumas imagens tiradas do Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima do ano de 1936 e dos Dossiês “Calçamento de Ruas de Bello Horizonte” e no “Aspectos da cidade de Bello Horizonte”, ambos editados pelo Governo no inicio dos anos 30, do qual já publiquei algumas imagens em artigos anteriores. Podemos ver nas imagens as obras realizadas em diversos pontos das Zonas Urbana e Suburbana como o calçamento, a pavimentação asfáltica de ruas e avenidas, canalizações entre outros serviços, importantes e inadiáveis devido principalmente a rápida expansão urbana que se verificou à partir dessa década. Outro fato notável é a tipologia urbana das edificações, que começavam a ceder o lugar para a verticalização iniciada na primeira metade da década.


Pavimentação da Avenida Paraúna, atual Getúlio Vargas concluída nos anos 30. A esquerda o Jardim de Infância, depois Escola Estadual Bueno Brandão.
Fonte: APM


Calçamento de um trecho da Avenida Cristovão Colombo nas proximidades da Praça da Savassi. A direita vemos algumas casas residenciais ainda existentes e refuncionalizadas para uso comercial.
Fonte: APM


Processo de pavimentação nas proximidades da Praça da Liberdade.
Fonte: APM


Obras de pavimentação da Avenida Cristovão Colombo no cruzamento com a Avenida Getúlio Vargas. Ao fundo vemos os quarteirões ocupados atualmente por uma cafeteria e uma sapataria entre outros estabelecimentos. A esquerda o Abrigo de Bondes Pernambuco.
Fonte: APM


Avenida Brasil em 1933, nas proximidades do Quartel.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


A mesma Avenida em 1935 após a realização de obras de calçamento e embelezamento, nas proximidades da Avenida Francisco Sales.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Calçamento da Rua Tupis, no cruzamento da Rua Araguari. A direita a Padaria ainda existente.
Fonte: APM


Pavimentação da Rua Tupinambás concluída nas proximidades da Rua Curitiba. Na imagem é possível ver entre algumas casas comerciais várias casas residenciais pertencentes a diversos funcionários públicos originários de Ouro Preto que receberam terrenos na área central quando da mudança da capital. Anos mais tarde essas casas deram lugar aos Edifícios comerciais existentes no centro de Belo Horizonte.
Fonte: APM


Pavimentação da Rua Rio de Janeiro na esquina da Rua dos Caetés. A esquerda vemos a antiga Casas Pernambucanas e à direita a Casa Bleriot e o seu farol.
Fonte: APM


Abertura da Avenida Pedro II em 1936 vendo-se no centro da imagem o Córrego do Pastinho.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Aterro Sanitário da Baleia.
Fonte: APM


Saneamento e abertura da Avenida Bias Fortes, no cruzamento com a Rua Rio Grande do Sul. Ao fundo a antiga Fábrica da Aymoré.
Fonte: APM


Construção de um muro de arrimo entre a Rua Itambé e a Avenida Francisco Sales no bairro Floresta.
Fonte: APM


Muro de arrimo após a sua conclusão.
Fonte: APM


Preparação do terreno para a construção do Reservatório da Pedra Bonita/Morro dos Pintos no Alto Barroca.
Fonte: APM


Transporte de tubo recém chegado na Estação Central destinado para a captação de água na região do Barreiro.
Fonte: APM


Usina da Companhia de Estradas Modernas, localizadas na margem esquerda do Ribeirão Arrudas na Avenida dos Andradas.
Fonte: APM


Vila Renascença nas proximidades da Fábrica de Tecidos.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Vista do centro de Belo Horizonte a partir do Edifício Ibaté na segunda metade dos anos 30 onde vemos o edifício do Cinema Brasil e ao fundo o Edifício Chagas Dória.
Fonte: APM
A arquitetura Art-Déco foi amplamente utilizada nas construções em Belo Horizonte nos anos 30 e 40 deixando marcas significantes na sua paisagem. Ainda temos alguns ícones remanescentes desse período apesar da acelerada demolição de diversas casas e edifícios, principalmente nos últimos anos do qual somos todos testemunhas. A especulação imobiliária e a necessidade de melhorias no sistema viário da capital "vitima" belos ícones dos anos 30 e 40. O antigo prédio da Minas Máquinas e o Cine São Cristovão são exemplos de alguns exemplares demolidos em prol do progresso. Posto abaixo um vídeo sobre a Arquitetura Art-Déco em Belo Horizonte cuja autoria é de Artur Vitor Iannini, resultado de um sistemático trabalho que nos remete a década em que se teve inicio a verticalização de Belo Horizonte cujas marcas estão presentes até os dias atuais, tudo isso registrado no vídeo.




Autor do vídeo: Artur Vitor Iannini - YouTube
Planta da cidade de Belo Horizonte de 1895 onde se vê a Avenida do Contorno dividindo as Zonas Urbana e Suburbana.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

A Avenida 17 de Dezembro ou Avenida do Contorno, nome adotado pelo próprio Aarão Reis foi traçada pela Comissão Construtora da Nova Capital para ser o limite entre a Zona Urbana e a Zona Suburbana. Ela dividiria a área reservada para os profissionais liberais, comerciantes e funcionários públicos da área destinada à população de menor poder aquisitivo. Dentro dos limites da Avenida tudo foi pensado e projetado para dar suporte ao crescimento racional e ordenado da nova capital a começar pelo traçado que distingue a zona urbana das demais regiões da capital até os dias atuais, além dos serviços de água, esgoto, calçamento até a arborização e recolhimento de lixo entre outros serviços. Nos primeiros anos do Século XX já era visivel a extrapolação dos limites da Contorno pela malha urbana da capital, principalmente nas colônias agrícolas que circundavam a zona urbana. Um dos motivos desse crescimento à partir dos subúrbios da capital era de que em toda a zona limítrofe com a Avenida do Contorno as leis que regulamentavam a delimitação dos lotes para a construção eram bem mais brandas do que os critérios definidos pela Prefeitura para as construções na zona urbana, que impunha inúmeras restrições para a liberação de uma determinada obra. Esse fato aliado à especulação imobiliária que inflacionou os terrenos dentro da zona urbana além da necessidade de se povoar as vastas áreas suburbanas foram os principais motivos para a lenta ocupação da dita zona além de atrasar a abertura e a finalização de diversas ruas e avenidas, entre elas a própria Contorno.
A Avenida, até o inicio dos anos 20 exibia todo o seu traçado apenas nas Plantas Cadastrais da capital. Ela era na verdade retalhos que circundavam a zona urbana. A Avenida existia em fragmentos na área central, no bairro Floresta e em partes dos bairros Serra, Santa Efigênia e Funcionários. Nos outros trechos a Avenida era apenas uma estrada estreita de terra ou mesmo uma trilha, como nas imediações dos bairros Cidade Jardim e Santo Agostinho, regiões que foram urbanizadas e ocupadas anos mais tarde.
Sobre a Avenida disse o chefe da Seção de Obras da Prefeitura em 1920:

“A Avenida do Contorno não está ainda aberta e regularisada de modo a contornar, de facto, a cidade; mas sei-o-á um dia e, portanto, precisa ser conservado o seu traçado primitivo”.

A partir de 1920 a finalização da Avenida passou a ser prioridade por parte da Prefeitura pois a cidade apresentava uma expansão na Zona Suburbana, principalmente nas áreas limítrofes com a Contorno. Muitos trechos da Avenida simplesmente haviam virado quarteirões devido a falta de uma Seção de Cadastro eficaz da Prefeitura que permitiu a ocupação irregular em diversos trechos da Avenida. Podemos citar como exemplo o trecho da Avenida do Contorno no cruzamento com a Avenida Carandaí e parte da Avenida Araguaia (Francisco Sales). A Avenida foi projetada pela Comissão Construtora para ter cerca de trinta e cinco metros de largura, mas em 1920 tinham apenas cinco metros de largura devido à existência ai de um lote irregular “vendido” pela Prefeitura no inicio do Século. Nesse caso a Planta Cadastral foi ignorada e para continuar a abertura da Avenida foi necessário um acordo com o “dono” do terreno, não sem ônus para a Prefeitura. Ainda nessa década a Avenida foi regularizada entre a área central e a Avenida Barbacena e no fim da década regularizada nos bairros de Santa Tereza e Santa Efigênia.

Na imagem pode-se ver a Avenida do Contorno sendo regularizada entre os bairros Santa Tereza e Santa Efigênia, na altura do Frigorifico Perrela.
Fonte: APM

Abertura da Avenida do Contorno no sentido bairro Floresta.
Fonte: APM

Durante a década de 30 até a sua conclusão já nos anos 40 a Avenida foi aberta e regularizada em alguns trechos entre o bairro Funcionários e o Barro Preto. Foi nesse trecho que a Avenida sofreu uma drástica alteração em relação ao seu traçado projetado pela Comissão Construtora. Como podemos ver na imagem abaixo o trecho compreendido entre a Rua Rio de Janeiro e a Rua Ouro Preto são na verdade trechos da Avenida Barbacena e Rua Antônio de Albuquerque, trechos estes que foram incorporados à Avenida do Contorno quando da sua abertura.

Foi feita uma grande mudança nos arruamentos das seções antes inseridas na Zona Urbana. Seções, ao mesmo tempo em que eram realizadas obras de infra-estrutura sanitária no vale do Córrego do Leitão área de extrema importância para a Prefeitura devido à arrecadação de impostos, entre outros fatores. Após a relocação da avenida entre as ruas Rio de Janeiro e Ouro Preto ela foi concluída no inicio dos anos 40 permitindo a expansão de uma área importante da capital, ocupada a partir da gestão JK pela população de maior poder aquisitivo e proporcionando a melhoria do acesso a toda a Zona Suburbana da capital.

Parte da Planta Cadastral de 1895 aonde vemos sinalizadas as áreas brejosas do Córrego do Leitão no local em que se abriu a Rua Joaquim Murtinho alguns anos mais tarde.

Mas qual teria sido o motivo da mudança de seu traçado? Em minhas pesquisas relacionadas a esse assunto não encontrei nada que justificasse essa mudança. Fez-se necessária então a analise das Plantas confeccionadas pela CCNC. Nelas o Córrego do Leitão tinha, nas proximidades da Fazenda do Leitão uma grande área brejosa e essa área seria exatamente cortada pela Avenida segundo a Planta de 1895. Como a Comissão Construtora não executou as obras nessa região ela se tornou posteriormente uma das colônias Agrícolas que existiram na infante capital de Minas, a Colônia Afonso Pena e mesmo após a sua incorporação à malha urbana de Belo Horizonte essa região continuou pouco povoada.

Na época em que se resolveu dar continuidade à Avenida do Contorno certamente houve um estudo da área em que deveria ser aberta a Avenida e acredito que três motivos levaram o Poder Público a relocar a Avenida suprimindo 12 quarteirões que seriam construídos dentro da zona urbana e que diminuiu consideravelmente a sua área. O primeiro motivo é o fato de que seria muito oneroso e dispendioso realizar uma drenagem das áreas brejosas do Leitão, áreas que até os dias atuais, mesmo estando totalmente ocupadas, saneadas e impermeabilizadas continuam apresentando sérios problemas nos períodos chuvosos, um retrato do desprezo e negligência dos órgãos responsáveis ao permitir a ocupação desenfreada nas vertentes do Córrego, sem levar em consideração a sua topografia além que, se esse trecho tivesse sido aterrado e nivelado quando da abertura da Avenida Prudente de Morais, na canalização do Córrego em 1970 os problemas seriam bem menores. O segundo motivo é que nessa época já existia a Rua Joaquim Murtinho, aberta exatamente no local em que deveria passar a Avenida e que já contava com diversas casas. Remanejar a população ai residente e alargar a rua certamente seria mais oneroso para a Prefeitura do que mudar o traçado da Avenida para uma região ainda desabitada. O terceiro motivo é que já existia uma consciência da necessidade de preservação da sede da Fazenda do Leitão, ultimo casarão remanescente da Freguesia do Curral del Rey. A Avenida, se aberta conforme a Planta Cadastral incluiria o casarão dentro dos limites da Zona Urbana e assim selaria a sua demolição.

Parte da Planta Cadastral de 1928 onde vemos sinalizadas o primitivo traçado da Avenida, a Fazenda do Leitão e as áreas brejosas nas margens do Córrego do Leitão.
Fonte: APCBH

A foto acima, datada do inicio dos anos 50 está sinalizada em vermelho umas parte das áreas brejosas nas margens do Leitão que foram drenadas e impermeabilizadas anos mais tarde com o prolongamento da Rua Joaquim Murtinho. Vemos também o Córrego ainda não canalizado, o Museu Abilio Barreto, a Faculdade de Odontologia e o Conjunto IAPB em construção além de outros edifícios.
Fonte: APCBH


Abertura da Avenida Prudente de Morais e canalização do Córrego do Leitão em 1970, no cruzamento com Rua Joaquim Murtinho.
Fonte: APCBH/ASCOM

Parte das antigas áreas brejosas do Córrego do Leitão no cruzamento das Ruas Joaquim Murtinho e Marquês de Paranaguá hoje impermeabilizadas e como não foram niveladas além de apresentarem um deficiente escoamento das águas essas áreas sofrem constantes alagamentos nos períodos chuvosos como vemos nas imagens acima, do ano de 2009.
Fonte: Portal Uai/EM

Estragos causados pelas enchentes no cruzamento das Ruas Joaquim Murtinho e Marquês de Paranaguá no ano de 2009.
Fonte: alissonbraz/Panoramio

A Avenida do Contorno é apenas uma das diversas vias que sofreram modificações no seu traçado original devido às construções irregulares ou por necessidade de se acompanhar um curso d’água. No caso da Contorno a mudança foi mais drástica, a tal ponto de extinguir diversos quarteirões da Zona Urbana que na verdade, em relação a arrecadação de impostos e venda de lotes não fez diferença pois a área suprimida se tornou anos mais tarde uma área nobre da capital, conservando-se assim até os dias atuais. Ao modificar acertadamente o traçado da Avenida desviando-se da área brejosa do Córrego do Leitão a Prefeitura evitou um problema que ainda existe na área no período chuvoso, mas que certamente seria muito mais grave caso a Avenida tivesse sido aberta segundo o traçado original devido ao grande fluxo de veículos que passam diariamente pela Avenida.

Traçado da Avenida do Contorno em 2009. Em vermelho o primitivo traçado no vale do Leitão.
Fonte: Google Earth/ acervo Curraldelrey.com (2010), traçado feito pelo Autor.

“A proporção que passa o tempo, mais se compreende que a implantação de Belo Horizonte no centro econômico geográfico do Estado obedeceu a uma sábia orientação; centro da atividade oficial, destina-se a polarizar toda a existência social e econômica de Minas, dando-lhe um sentido unitário e reagindo sobre a vida das diversas regiões na forma de constantes e de poderosos estímulos. E assim que a cidade, durante tantos anos necessariamente voltada à vida oficial, se está tornando uma cidade exemplar, em relação a todo o Estado, agitando-se de forças próprias pelo rápido incremento das atividades comerciais e industriais(...)” Parte do relatório do prefeito Octacílio Negrão de Lima de 1935.


Vista noturna da Praça da Estação e Praça Rui Barbosa em 1935. A Praça Rui Barbosa foi um dos embelezamentos patrocinados pelo Governo do Estado, em suas intervenções na capital.
Fonte: APM

Viva o concreto armado: a verticalização da área central

O crescimento desordenado de Belo Horizonte que teve inicio na segunda metade da década de 1920 gerou a primeira crise urbana verificada na capital no inicio da década de 1930. Como já dito em artigos anteriores (ver os anos 1910) o crescimento urbano de Belo Horizonte se deu a partir da zona suburbana, ou seja, em toda a zona limítrofe com a Avenida do Contorno as leis que regulamentavam a delimitação dos lotes para a construção eram bem mais brandas do que os critérios definidos para as construções na zona urbana. Mas a partir de 1925 as subdivisões de grandes terrenos foram dando origem as Vilas, principais responsáveis pela expansão do tecido urbano de Belo Horizonte nas direções norte e oeste, principais vetores de expansão urbana ate os dias atuais. A população na virada da década havia atingido a marca de 115.000 habitantes, a maioria espalhada na zona suburbana e nas vilas.


Mancha urbana de Belo Horizonte nos anos 30
Fonte: Urbel

Como se vê na imagem acima a zona urbana da capital se apresentava, no inicio dos anos 30 rodeada pelas vilas surgidas dos loteamentos das antigas propriedades. A malha urbana nessa década se caracterizava pela sua expansão nas direções leste e noroeste, em direção a Gameleira e a Pampulha. A cidade ocupava então uma área de cerca de trinta milhões de metros quadrados a mais do que foi prevista pela Comissão Construtora em 1895. Alguns bairros ainda conservam o nome das vilas. Podemos citar como exemplo os bairros Anchieta, Jardim América, Nova Granada e Nova Suiça que ainda conservam suas primitivas denominações.
As vilas foram à causa da expansão da malha urbana da capital. Para diminuir o excessivo numero de aprovações, que gerou uma grande acumulação de capital a prefeitura criou tardiamente em 1935 normas para as subdivisões dos terrenos, obrigando os proprietários a arcarem com toda a infra-estrutura necessária para o assentamento das vilas (água, luz, esgotos, calçamento etc:).


Essa acumulação de capital foi um dos fatores que permitiram os investimentos de particulares na área central de Belo Horizonte, desencadeando a partir dos anos 1930 o processo de verticalização.

Em Outubro de 1922 a Prefeitura lançou o regulamento de construções na capital que permitiu o aumento da densidade da área central, incentivando a sua verticalização. O concreto armado que já era empregado desde os anos 20 nas construções de pontes, reservatórios e de alguns edifícios, grande parte deles localizados na Rua dos Caetés teve de fato regulamentado o seu uso em 1933 com o Decreto Nº. 165. Nesse mesmo decreto a capital sofreu alterações em relação ao seu zoneamento.
Anterior ao decreto foi inaugurado em 1932 o Cinema Brasil decretando o fim da “era do tijolo” e dando inicio a “era do concreto armado” em Belo Horizonte. O prédio do Cine Brasil lançou um estilo arquitetônico amplamente adotado na capital nos anos 30 e 40: o estilo Art Déco, que traz como características marcantes a base retangular e os frisos horizontais em baixo relevo, como podemos observar nas imagens abaixo.
A regulamentação do uso do concreto armado mostrou as suas conseqüências pouco tempo depois da publicação do Decreto. Em 1935 era inaugurado o edifício Ibaté, o primeiro “arranha céu” de Belo Horizonte construído na Rua São Paulo esquina com a Avenida Afonso Pena. O edifício de 10 andares, cujo projeto pertence ao arquiteto Ângelo Murgel foi concebido em linhas retas e com grandes janelas além de um mirante colocado acima do último andar como se vê nas fotos abaixo.


Edifício Ibaté, o primeiro construido na capital.
Fonte: Acervo MHAB


Edifício Ibaté visto da Avenida Afonso Pena nos anos 30.
Fonte: APM


Prédio do Cinema Brasil na Praça Sete.
Fonte: Acervo MHAB

A sua construção marcou o inicio da substituição das construções de finalidade residencial na área central, a maioria de no máximo três andares e muitas delas datadas da construção da capital. Devemos lembrar que muitas destas construções pertenciam aos antigos moradores de Ouro Preto e muitas das demolições coincidem com a mudança desses moradores para áreas mais afastadas do centro ou mesmo com a morte deles. A verticalização permitiu o maior adensamento da área central e abriu caminho para a verticalização exagerada das décadas seguintes. Além do Ibaté e do Cine Brasil, outros edifícios (todos destinados ao uso comercial) construídos no mesmo período selaram definitivamente a mudança espacial da capital, adensando a área central e abrindo caminho para o modernismo, graças ao concreto armado. Entre eles se destacam:

- Feira de Amostras, construído em 1935 e demolido no inicio da década de 60.
- Edifício Chagas Dória, construído em 1934.
- Edifício da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte em 1935.
- Edifício dos Correios e Telégrafos, construído em 1936.
- Edifício Capichaba, construído em 1939.


Edifício Capichaba construído na Rua Rio de Janeiro, nas proximidades da Praça Sete.
Fonte: Acervo MHAB


Edifício Chagas Dória, na esquina da Rua Sapucaí e Assis Chateaubriand.
Foto: Rodrigo Eyer Cabral

Montagem feita com imagens de alguns edifícios construídos nos anos 30.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.

Voltemos ao caso do crescimento urbano. Foi criada em 1934 uma Comissão de engenheiros e arquitetos visando à criação de um plano regulador para o crescimento urbano da capital. Era de extrema importância o trabalho dessa comissão, pois com a verticalização da área central as casas e os sobrados, na sua maioria residenciais eram demolidos para dar lugar aos arranha céus, na totalidade comerciais obrigando então os antigos donos das casas a adquirirem lotes ou casas em locais mais afastados do centro pois a legislação para a zona urbana, no que diz respeito as construções eram rígidas se compararmos com a legislação para as áreas fora dos limites da Contorno, além da especulação que existia sobre os lotes que ainda existiam na área urbana, que não eram poucos. Grande parte dos loteamentos que foram criados eram irregulares e diversas áreas eram demarcadas a revelia da Prefeitura. Além disso, havia o problema da relocação dos operários, que eram então “empurrados” para áreas mais afastadas do centro e a migração originaria do interior, em busca de melhores condições de vida. Na verdade a Comissão teve pequena influência no ordenamento urbano e a malha urbana capital continuou a se expandir ano após ano.
Foi nessa década que Belo Horizonte deixou de ser uma cidade que exercia praticamente só a função administrativa, para se consolidar também como um pólo comercial e industrial, principalmente após 1935.

Em 1936 criou-se uma zona industrial ao longo das linhas férreas e do ribeirão Arrudas, além da área existente no Barro Preto. Diversos edifícios datados desta época ainda existem no vale do Arrudas e no Barro Preto, porém com sua função alterada ou em ruínas. O prédio da antiga fabrica da Companhia Souza Cruz é um exemplo desta requalificação que se observa, atualmente com função institucional.


Prédio da antiga Companhia Souza Cruz alguns anos após a sua construção.
Fonte: BH Nostalgia


Fábrica da Renascença no ano da sua inauguração.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.

Instalou-se em 1936 na Vila Renascença a Companhia Industrial Renascença na dita vila com a finalidade de fabricar tecidos finos. Foi criada uma vila para os operários da fabrica, o que obrigou a municipalidade a estender as linhas de Bonde até a dita vila. Nas suas proximidades se instalou a Cidade Ozanan, da Sociedade São Vicente de Paulo destinada a ser uma colônia de mendigos.

Uma das prioridades dessa década foi à relocação e conclusão da Avenida do Contorno. A sua conclusão era reclamada há muitos anos, principalmente pelos moradores dos bairros Santa Efigênia e Santa Teresa. Ela estava também por concluir na região próxima do Vale do Leitão, entre a Rua Joaquim Murtinho e em grande parte da região limítrofe com o Barro Preto e Barroca. Após a relocação da avenida entre as ruas Joaquim Murtinho e André Cavalcanti ela foi concluída, permitindo a expansão de uma área importante da capital, posteriormente ocupada na gestão JK pela população de maior poder aquisitivo. Data desse período o inicio da remoção das favelas da barroca (região atualmente ocupada pela Praça Carlos Chagas – Assembléia), e as ultimas cafuas nas áreas dos bairros Santo Agostinho e Cidade Jardim.


Praça Duque de Caxias inaugurada em 1937.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


Abertura da Rua Pernambuco, atual Alameda Ezequiel Dias. O prolongamento dessa via diminuiu consideravelmente a área do Parque Municipal.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Calçamento e construção de um novo abrigo de Bondes no cruzamento das Avenidas Getúlio Vargas e Cristovão Colombo (Praça Diogo de Vasconcelos).
Fonte: APM

Ainda na gestão do prefeito Octacílio Negrão de Lima foi construída a barragem no Rio Pampulha, visando o abastecimento de água da capital. Inicialmente havia-se cogitado represar as águas do Arrudas porém seria extremamente dispendioso o serviço além de prejudicar a linha férrea que seguia o seu curso². Optou-se então pelo represamento do Rio Pampulha, menos dispendiosa e feita por uma barragem de terra. Para facilitar o acesso a Represa foi calçada a estrada que levava a ela, hoje Avenida Isabel Bueno. Ao longo da represa foi aberta uma avenida e as águas represadas permitiram a realização de diversos esportes aquáticos. Era o inicio da construção do que viria a ser, anos mais tarde o berço do Modernismo de Oscar Niemeyer.
A falta de lugares destinados à recreação era notória em Belo Horizonte. Com exceção do Parque Municipal praticamente inexistiam áreas destinadas à recreação e ao pleno convívio social. Diante disso a Prefeitura resolveu criar no local destinado a ser o Zoológico da nova capital um parque, o Parque Santo Antônio. A parte superior que no projeto original fazia parte do Zoológico foi regularizada, tornando-se um quarteirão edificável – o quarteirão compreendido entre as ruas da Bahia, Fernandes Tourinho, Espírito Santo e Antonio de Albuquerque. O restante do terreno, que era atravessado pelo córrego do Mendonça era insalubre e apresentava uma declividade que impossibilitou a ocupação inicial, ficando como área de reserva para expansões futuras. Após a criação do Parque, destinado inicialmente a população dos bairros adjacentes resolveu-se então arrenda-lo para um grupo de pessoas interessadas em consolidar ali a sede de seu clube recém fundado. No Parque originou-se o Minas Tênis Clube, que “arrendou” o terreno após “concorrência publica” para a formação de seu clube³.


Antiga estrada da Pampulha recém calçada.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Construção do Parque Santo Antônio na Rua da Bahia. Ao fundo a antiga Rua dos Emboabas (Antônio Aleixo).
Fonte: APM

Data dessa década o inicio da abertura das vias nos fundos de vales, as Avenidas Sanitárias. Entre outras foram abertas a Avenida Silviano Brandão sobre o Córrego da Mata entre a Rua Conselheiro Lafaiete e o ribeirão Arrudas, a Avenida Francisco Sá, antiga Almirante Jaceguai sobre o Córrego dos Pintos e a Avenida Pedro II foi aberta ao longo do Córrego do Pastinho.

A Avenida Pedro II foi aberta inicialmente entre a Rua do Ramal (Nossa Senhora de Fátima) e a Rua Manhumirim, tendo sido executado o serviço em três etapas, a saber: a canalização entre a Rua do Ramal e Mariana, posteriormente estendida até a Rua Jaguari e por ultimo até a Rua Manhumirim.
O bairro Floresta havia superado o bairro dos Funcionários em número de habitantes e se tornou o bairro mais populoso da capital na década de 30. A Avenida do Contorno que divide o bairro ao meio nas proximidades da casa do Conde de Santa Marinha era a mais importante ligação do bairro com a área central e que empreendia grande comercio entre essa área e o bairro, principalmente na Rua dos Caetés e do Comércio. Em vista da necessidade de uma maior articulação entre essas duas importantes zonas da cidade resolve-se construir um Viaduto sobre as linhas férreas, no intuito de melhorar o fluxo viário na região além de evitar os acidentes que aconteciam com freqüência, principalmente com os Bondes ao passar sobre as linhas férreas. O Viaduto da Floresta foi concluído em 1936 melhorando significativamente a comunicação entre esse bairro e a área central, além de beneficiar outros bairros da região, como o de Santa Teresa e o embrionário bairro da Sagrada Família.



Canalização do Córrego do Pastinho e Avenida Pedro II.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


Canalização do mesmo Córrego.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


Avenida do Contorno antes da construção do Viaduto Floresta com o cruzamento das linhas férrea e do Bonde que atendia o bairro Floresta.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


O Viaduto logo após a sua inauguração.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.

Foi relocado em 1937 o rancho de tropas ao lado do Mercado Central, na Rua Curitiba. Nessa época ainda era intenso o transito de tropas trazendo produtos para serem comercializados na capital. É digno de nota a persistência desse serviço, já obsoleto em grande parte do Estado devido a abertura de ferrovias e estradas de rodagem que facilitaram e encurtaram as distancias entre os produtores e o mercado consumidor e que modificaram todo o tempo-espaço entre os núcleos urbanos.
A população da capital cresceu entre 1930 e 1940 um pouco mais de 80%, atingindo a marca de 214.000 habitantes. Belo horizonte perdia a estigma de ser apenas destinada as funções políticas e administrativas, estava na verdade se tornando um pólo econômico que influenciaria nas décadas seguintes várias regiões do estado.
Nessa década à ocupação da cidade deu-se pelos vetores norte e oeste, vetores que se tornaram o eixo de expansão nas décadas seguintes. O Governo procurou exercer a partir de 1934 um maior controle sobre a expansão urbana procurando assim evitar a desordenada expansão que perdurou durante toda a década (e nas décadas seguintes). Devemos lembrar que essa tentativa de controle era uma das características do Governo Vargas, irradiada para o resto do país. Porém isso não impediu o que viria a ser a década de 40, a década do modernismo, da cidade industrial e do boom da verticalização.


Vista aérea da Praça da Liberdade a ao fundo o terreno onde se construiu o Parque Santo Antônio.
Fonte: BH Nostalgia

O transporte público: um entrave no desenvolvimento da capital

    O transporte público nunca acompanhou de fato o desenvolvimento de Belo Horizonte. Junto com os serviços de calçamento, água, esgotos e eletricidade ele era essencial para o deslocamento da população para a área central da capital, seja para trabalho, seja para lazer ou aquisição de produtos.
    Como já abordado em artigos anteriores os serviços de Bondes haviam sido arrendados pela “Sampaio Correa & Comp”, juntamente com os serviços de energia elétrica no ano de 1912. Entre essa data e o inicio dos anos 20 a Companhia se limitou apenas a duplicar algumas linhas de maior movimento e a estender outras em pequenos trechos. Além do número de passageiros não ter crescido consideravelmente nesse período, devido a falta de infra-estrutura para atender a demanda populacional que crescia cada vez mais havia outro problema que se agravava a cada ano: a falta de investimentos na geração de energia. A energia que abastecia a cidade vinha em grande parte da Usina do Rio de Pedras que passou a apresentar no inicio os anos 20 um esgotamento na sua produção, devido ao aumento da demanda na capital. Isso travou por um tempo a expansão dos serviços de eletricidade, telefonia e transportes até o ano de 1926 quando o Governo Estadual resolve intervir, na tentativa de diminuir a deficiência dos serviços que contribuía para o atraso do crescimento de diversas regiões da capital.
    Uma coisa deve-se entender: o crescimento urbano está estritamente ligado com as redes de transportes, seja ele ferroviário, rodoviário etc: a malha urbana sempre acompanha os principais eixos viários de uma urbs pois normalmente os serviços essenciais para a manutenção e sobrevivência de uma zona ou região está ao longo das vias ou em suas proximidades além de toda a comunicação com o “centro nervoso” de uma cidade. Ao analisarmos o crescimento urbano de Belo Horizonte nesse período veremos que ele se deu ao longo das principais vias de comunicação, ou seja, as zonas oeste, noroeste e nordeste.
Visando a melhoria do transporte publico foi firmado em Março de 1923 um contrato para a criação de linhas de auto-ônibus. Esse serviço veio a atender regiões ainda não atingidas pelos Bondes e, com o tempo se expandiu cada vez mais para outros bairros da cidade visando suprir a falta desses. Em 1928 o Governo adquiriu alguns ônibus visando suprir a falta de Bondes ocasionada pela grande seca que diminuiu a capacidade da Usina de gerar energia para o abastecimento da capital. Além dessas linhas viárias existia também o transporte feito por particulares, sob concessão do Governo para a execução de tais serviços.
Os serviços de Bondes, sob intervenção do Estado tiveram suas linhas expandidas para diversos bairros e vilas na zona suburbana como, por exemplo, o Padre Eustáquio (ainda vila) e a Gameleira.
    Nos anos 30 a expansão dos transportes teve um controle maior por parte do Governo. A criação dos grandes eixos viários contribuiu de forma significativa para o aumento dos serviços de transporte, facilitando o deslocamento da população das áreas mais afastadas da capital até a zona central. Nesse contexto podemos também incluir as avenidas sanitárias, localizadas nos fundos dos vales e que foram criadas ao longo dos anos 30.
    Os bondes, mesmo tendo as suas linhas expandidas para diversas partes da zona suburbana no final dos anos 20 ainda apresentava um déficit enorme em relação à demanda da população para tais serviços. Já os ônibus tiveram a sua frota aumentada ao longo da década de 30, porém a frota se apresentava em grande parte sucateada como vemos na imagem abaixo, extraída de um jornal da época.

    Os ônibus já faziam parte do cotidiano dos transportes da capital, mas só ganharia força nas décadas seguintes, com a decadência dos serviços de bondes e a criação de outras linhas fazendo com que perdesse o rotulo de ser um transporte exclusivamente “proletariado”. Com a frota em mal estado de conservação e os bondes operando no limite de tempo e realizando várias viagens durante o dia os acidentes eram inevitáveis, como se vê na imagem abaixo, de um acidente ocorrido no ano de 1937 na Avenida Tocantins.


Noticia sobre o transporte coletivo nos anos 30.
Fonte: OMNIBUS - uma historia dos transportes coletivos em Belo Horizonte; FJP. Centro de Estudos Históricos e Culturais.


Inauguração dos serviços de ônibus em Belo Horizonte.
Fonte: OMNIBUS - uma historia dos transportes coletivos em Belo Horizonte; FJP. Centro de Estudos Históricos e Culturais.



Acidente com um Bonde no ano de 1937.
Fonte: OMNIBUS - uma historia dos transportes coletivos em Belo Horizonte; FJP. Centro de Estudos Históricos e Culturais.

Os Bondes não sofreram aumento em sua frota durante a década de 30, apesar do grande crescimento da capital nessa década, principalmente nas áreas mais afastadas da área central, exceção à linha da Vila Renascença datada de 1936 visando atender a Fabrica de Tecidos recém inaugurada. Não justificava a extensão dos serviços de bondes para tais áreas, pois além desses loteamentos, muitas vezes ilegais carecerem de todo tipo de serviços seria muito dispendioso levar os serviços para atender a uma pequena parcela de população.


Bonde na porta da Oficina de Bondes que ficava no local aonde foi construído anos mais tarde o Mercado Novo.
Fonte: Acervo MHAB


² Extraído do Relatório de 1935 do Prefeito Octacílio Negrão de Lima pág. 65.

³ Por não ser o meu objeto de estudo (política e interesses) não aprofundarei nesse tema...

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