*Recomendo a leitura do livro Rios invisíveis da metrópole mineira, que aborda a história das águas urbanas de Belo Horizonte.

   Quando se projetou a nova capital no final do Século XIX os cursos d’água que atravessariam a zona urbana – no caso os Córregos do Acaba Mundo, Serra e Leitão¹ foram simplesmente ignorados pela Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), como se vê na Planta Cadastral de 1895. Com exceção do Ribeirão Arrudas os cursos d’água não estavam em harmonia com a malha urbana projetada, atravessando inclusive diversos quarteirões que foram projetados sobre a calha dos córregos.
   Entre 1897 e 1920 eles ainda estavam no seu leito natural, tendo sofrido poucas modificações ao longo dos anos. Mas é na década de 20 que se tem o inicio da retificação dos cursos d’água e da canalização dos mesmos. Essas medidas visavam adequar os cursos d’água ao crescimento urbano, pois a canalização possibilitaria a abertura das vias projetadas e a construção e ocupação dos quarteirões. Era uma medida que permitia a continuidade da expansão da malha urbana, mas que traria sérias conseqüências para a população da capital, como veremos adiante.
   As canalizações também visavam resolver o problema das enchentes que ocorriam com freqüência na capital. Naquela época acreditava-se que ao canalizar um curso d’água solucionaria o problema das enchentes, desbarrancamentos etc. Atualmente sabemos que a canalização atenua mas não resolve esse problema.
   A canalização de um curso d’água na maioria das vezes o desvia do seu leito natural, passando a não existir mais os obstáculos naturais que ajudam a diminuir a velocidade da água. Com isso as águas passam a correr com mais velocidade aumentando a sua vazão e levando os problemas das enchentes para as áreas mais próximas da sua foz. A impermeabilização do solo, a retirada da cobertura vegetal e a ocupação das várzeas também contribuem para o agravamento do problema².


Córrego do Acaba Mundo antes da sua canalização na Rua Bernardo Guimarães. 
Ao fundo a Avenida Afonso Pena.
Fonte: APM

   O primeiro curso d'água a ser retificado e canalizado foi o Ribeirão Arrudas que teve a canalização da área central (trecho entre as proximidades da Ponte do Saco e a Avenida do Contorno na Ponte do Perrela) concluída no inicio da década de 30. A canalização do trecho urbano foi concluída somente em 1940 na administração JK.
   Já os três córregos citados (Acaba Mundo, Serra e Leitão), todos afluentes da margem direita do Arrudas também tiveram a sua retificação e canalização a céu aberto iniciada nos anos 20. O Acaba Mundo era o mais problemático, pois atravessava o bairro funcionários e desaguava na área central de Belo Horizonte, dentro do Parque Municipal. No período das chuvas ele transbordava, danificando ruas e pontes que eram obrigadas a passar por intermináveis reparos e conforme dito anteriormente o seu leito prejudicava a regularização dos quarteirões compreendidos na 5ª e 6ª Seção Urbana. A solução foi canalizá-lo, aterrando o seu leito natural e construindo outro ao longo da Rua Paraibuna, atual Professor Morais e da Avenida Afonso Pena. Nessa época devido a falta de emissários de esgoto na região os efluentes eram jogados in natura no córrego, o que gerou muitas reclamações por parte da população.
   O córrego do Leitão até o inicio dos anos 1920 não recebeu muita atenção da municipalidade, pois ele atravessava uma grande parte da cidade que ainda não havia sido urbanizada. A partir da segunda metade da década de 1920 é que se tem o inicio da ocupação dessa zona da capital. A prefeitura então inicia a retificação e a canalização do córrego desde a sua foz até a recém aberta Rua Alvarenga Peixoto. Nos anos seguintes a canalização foi estendida até a Avenida do Contorno, nas proximidades da antiga sede da Fazenda do Leitão. As suas águas inicialmente não recebiam esgotos, pois quando da sua canalização foram instalados coletores de esgotos paralelamente ao seu curso, evitando então que se despejassem os efluentes em suas águas.
  Já o córrego da Serra nascia nas vertentes da Serra do Curral e atravessava parte dos bairros Funcionários e Santa Efigênia indo desaguar no Arrudas, no local onde existiu uma Fabrica de Ferro no Século XIX e posteriormente o Matadouro Velho, nas proximidades da favela União ou “Ilha do Urubu”, aglomerado que ali existiu à partir da década de 1950 e erradicado quando foi estendida a canalização do Arrudas nos anos 1980.


Córrego do Acaba Mundo recém canalizado para a Avenida Afonso Pena.
Fonte: APM


O Córrego do Leitão canalizado entre as ruas Gonçalves Dias e 
Alvarenga Peixoto.
Fonte: APM


Canalização do Córrego do Leitão nas proximidades da sua foz.
Fonte: Acervo MHAB


Canalização do Ribeirão Arrudas nas proximidades da Rua Ceará. 
Ao fundo o Instituto Afonso Pena.
Fonte: APM


Canalização do Arrudas entre as Ruas Curitiba e Rio de Janeiro.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacilio Negrão de Lima,1935.


Canalização do Arrudas nas proximidades do Prado.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacilio Negrão de Lima,1935.


Canalização do Córrego da Serra no bairro Funcionários.
Fonte: APM


Canalização do Córrego da Barroca na Rua Araguari.
Fonte: APM

    O crescimento acelerado de Belo Horizonte a partir dos anos 1950 não permitiu que os serviços de infra-estrutura acompanhassem esse aumento populacional. Os cursos d’água tornaram-se redes de esgotos, pois os emissários existentes não suportavam o volume e além disso eles sofriam com o lixo que assoreavam o seu leito. Diante do colapso iminente no inicio dos anos 1960 toma-se a decisão de fechar os cursos d’água que atravessavam a região central, eliminando assim o mau cheiro, o risco de doenças e principalmente as inundações que já faziam parte do cotidiano do belorizontino no período das chuvas. O fechamento dos córregos também procurava melhorar o tráfego na capital que havia aumentado consideravelmente a partir de 1950 e ainda visava o embelezamento da cidade, pois havia um movimento para que Belo Horizonte voltasse a ter o titulo de “Cidade Jardim”, abalada desde o corte das árvores da Avenida Afonso Pena em 1963.
   O primeiro córrego no qual se iniciaram as obras foi o Acaba Mundo em 1963. Como projetado pela Comissão Construtora o córrego despejava as suas águas nos lagos do Parque Municipal depois de atravessar boa parte da zona sul da capital e parte do bairro Funcionários, recolhendo os esgotos dessa área extremamente adensada. Em prol da saúde e do bem estar da população o córrego foi fechado entre a Rua Professor Morais e a Avenida Afonso Pena. Já os lagos do Parque Municipal que recebiam as águas provenientes do córrego passaram a ser alimentados pelas águas subterrâneas, sendo o Acaba Mundo desviado dos lagos e canalizado até a foz do Ribeirão Arrudas. No inicio dos anos 1970 foi concluída a sua canalização na Avenida Uruguai e em 1980 o córrego foi coberto na Avenida Afonso Pena e foi construído sobre o seu leito um canteiro central ajardinado.


                                      O Acaba Mundo em 1950 na Rua Professor Morais.
                                                           Fonte: APCBH/ASCOM


Obras de cobertura do canal do Acaba Mundo no cruzamento das 
Ruas Professor Morais e Tomé de Souza em 1963.
Fonte: APCBH/ASCOM


O Acaba Mundo revestido e canalizado no cruzamento da Avenida 
Afonso Pena.
Fonte: APCBH/ASCOM


Alargamento das galerias do Acaba Mundo no cruzamento da 
Avenida Afonso Pena e Rua Rio Grande do Norte.
Fonte: APCBH/ASCOM

   O córrego do Leitão passara a receber esgotos em suas águas devido à deficiência dos emissores destinados ao transporte dos efluentes. O grande e desordenado crescimento urbano foi à principal causa desse problema e o aumento da ocupação das vertentes do córrego nas proximidades de suas cabeceiras desencadeou o lento processo de assoreamento que nos períodos de chuva enlameava diversas ruas ao longo do seu curso. Outro problema que se verificava era o lançamento de lixo nas suas águas, principalmente na altura do Mercado devido a falta de consciência da população³ e da coleta deficiente de lixo por parte da Prefeitura que se agravou no decorrer da década de 60. A situação do lixo era tão grave que em alguns trechos do Ribeirão Arrudas ele impedia o escoamento normal das águas criando assim um ambiente propicio para a proliferação de doenças.
   No final dos anos 60 tem-se o inicio das obras de cobertura do canal do Córrego do Leitão assim como a sua canalização e cobertura na região da Cidade Jardim para a abertura da Avenida Prudente de Morais. Paralelamente as obras de cobertura do Leitão inicia-se a construção do elevado Castelo Branco na Avenida Bias Fortes. Concluída em 1972 a cobertura do córrego proporcionou a melhoria do fluxo viário na região, uma das justificativas para o seu sepultamento.
   Já o Córrego da Serra foi totalmente canalizado na Zona Urbana e fechado no inicio dos anos 70 em toda a extensão do bairro Santa Efigênia em parte das ruas dos Aimorés, Piauí e Maranhão. Era o sepultamento do primeiro manancial de água que serviu a capital.


O Córrego do Leitão em 1947 na Rua Padre Belchior.
Fonte: APCBH Coleção José Góes


Início da cobertura do canal do Córrego do Leitão em 1970 
supervisionado pelo Prefeito Souza Lima. 

Fonte: APCBH/ASCOM


Canalização do Córrego do Leitão para a abertura da Avenida 
Prudente de Morais. Ao fundo o edifício do TRE em 
construção e o Conjunto IAPB.
Fonte: APCBH/ASCOM


Cobertura do Córrego do Leitão na Rua Padre Belchior.
Fonte: Desconhecida


Cobertura do Córrego do Leitão na Rua São Paulo no ano de 1971.

Fonte: Desconhecida


Canalização do Córrego da Serra.
Fonte: APCBH/ASCOM


Canalização do Córrego da Serra na Rua Piauí. Ao fundo a Santa Casa de Misericórdia.

Fonte: SANEAMENTO básico em Belo Horizonte: trajetória em 100 anos - Coleção Centenário, FJP

   Como dito anteriormente o Ribeirão Arrudas, a principal drenagem da capital era (e ainda é) o receptor dos córregos citados acima, todos afluentes da sua margem direita. Desde a inauguração da capital em 1897 ele já sofria com o despejo de esgotos em suas águas, apesar da construção dos emissários a partir da década de 10. Com o passar dos anos a situação piorou cada vez mais devido ao crescimento populacional e o descompasso da prefeitura em relação aos investimentos necessários em saneamento. A partir dos anos 50 com o crescimento da cidade Industrial e da ocupação das áreas ao longo do ribeirão a poluição se tornou evidente e nos anos 70 ela “matou” o Ribeirão que passou a exercer a função que os emissários de esgotos deveriam ter. Os alagamentos no período das chuvas eram constantes e no inicio dos anos 80 começaram os trabalhos de alargamento e aprofundamento do canal do ribeirão visando acabar com as enchentes na região central sendo a canalização estendida ate a Avenida Silviano Brandão e nos anos 90 até o bairro Vera Cruz.
   O Boulevard Arrudas inaugurado em 2007 no trecho entre as Ruas Pernambuco e Rio de Janeiro foi construído com o intuito de melhorar o fluxo viário na região central inserida no Projeto da Linha Verde e o embelezamento da Praça da Estação que passava por uma requalificação.


Ribeirão Arrudas na região da Lagoinha no inicio dos anos 1960. 
A direita a antiga Rodoviária.
Fonte: APCBH/ASCOM


Obras de alargamento e rebaixamento do leito do Arrudas em 
1981 entre o Parque Municipal e a Ponte do Perrela.

Fonte: Desconhecida


Obras de alargamento e rebaixamento do leito do Arrudas em 1982.
Fonte: Desconhecida


Obras de alargamento e rebaixamento do leito do Arrudas em 1984 na Praça da Estação.

Fonte: SANEAMENTO básico em Belo Horizonte: trajetória em 100 anos - Coleção Centenário, FJP


O Ribeirão antes de ser canalizado após a Ponte do Perrela. A direita pode-se ver parte da Ilha do Urubu (Favelas União/Urubus), a esquerda a Favela do Perrela e ao fundo o bairro de Santa Tereza.
Fonte: SANEAMENTO básico em Belo Horizonte: trajetória em 100 anos - Coleção Centenário, FJP


As duas imagens do ano de 1967 e 2008 respectivamente mostram 
como era o leito do Arrudas antes da sua retificação e canalização nos anos 80. 
É notável a mudança sofrida no espaço, assim como o desaparecimento 
de grande parte da Ilha do Urubu (Favelas do Perrela e União) e o 
aterramento do antigo leito na altura da fábrica de Pregos São Lucas.
Acervo APCBH e Google Earth


   O que se vê atualmente em Belo Horizonte (2010) já está em desuso em boa parte do planeta: um fechamento de um curso d’água visando a melhoria da mobilidade urbana. Claro que no caso do Arrudas é necessária uma reflexão sobre as vantagens e desvantagens em deixar o seu curso aberto ou fechado. Ao longo do seu curso está uma das redes de articulação viária mais importantes de Belo Horizonte. A degradação ao longo do seu curso demanda uma urgente requalificação urbana no seu entorno e mesmo uma reurbanização em algumas áreas, principalmente na região do Barreiro. Mas a politica adotada pelo Poder Público vai contra tudo o que é divulgado pelo próprio Governo, em relação a forma como está se tratando dos cursos d'água da capital.
   Sejamos realistas: a despoluição e descanalização do Arrudas, tão discutida nesses últimos anos é uma tarefa quase impossível no atual contexto urbano em que vivemos. Para tal teria que se realizar uma grande intervenção em diversos pontos da capital e de Contagem, coisa impossível de se realizar atualmente pois interceptar 100% dos esgotos e renaturalizar o Ribeirão é uma árdua tarefa para as próximas décadas e que precisará de um vultuoso investimento por parte do Poder Público. Por isso, entre outros fatores é que o “problema” – assim é visto o Arrudas, um problema causado por nós deve ser erradicado da paisagem e sobre ele alargar as Avenidas, visando melhorar o fluxo viário e resolvendo o problema dos congestionamentos nos horários de pico, momentaneamente. Mas é bom lembrar que as suas águas continuarão poluídas e que certamente a população só se lembrará delas quando o Ribeirão tomar o que é seu por direito nas grandes enchentes.


O Córrego do Acaba Mundo durante as chuvas de 1999.
Fonte: Foto do Autor


Foz do Córrego da Serra no período chuvoso de 2009.

 Fonte: Portal EM/UAI


Ribeirão Arrudas na altura do bairro Betânia em 2009.
Fonte: Portal EM/UAI

   Pode-se afirmar que a grande maioria dos córregos e ribeirões que atravessam a capital, verdadeiros rios invisíveis tiveram o mesmo destino: passaram a integrar a rede de esgotos de Belo Horizonte. A transformação da paisagem foi radical, primeiramente com a canalização dos rios urbanos e posteriormente com a cobertura deles, ocultando-os da paisagem e legando a eles o papel de condutores de esgotos. A impermeabilização (concretagem) do fundo dos córregos e a extinção de sua várzea acarretam problemas que são visíveis nas grandes enchentes quando os córregos tomam o que é seu por direito alagando as vias construídas sobre eles. Assim sendo, qualquer semelhança da intervenção que se realiza atualmente (2010) no Ribeirão Arrudas com a intervenção realizada nos córregos do Acaba Mundo, Leitão e Serra nas décadas de 60 e 70 NÃO é mera coincidência, pois só muda a largura e a extensão, mas o destino deles foi e continuará sendo o mesmo³¹ até que se adote uma política de reinserção dos cursos d'água cobertos na paisagem urbana.


Obras do Boulevard Arrudas e a cobertura do ribeirão Arrudas na 
altura da Rua Paracatu.
Fonte: Foto do Autor


O Córrego do Acaba Mundo sob a Rua Professor Morais em Maio de 2010.

Fonte: Foto do Autor


Córrego do Leitão a jusante da Barragem Santa Lúcia.
Fonte: Foto do Autor


Córrego da Serra no ponto em que atravessa a Rua Cícero Ferreira.

Fonte: Foto do Autor


* Recomendo a leitura do artigo Os córregos e a metrópole - a inserção no espaço urbano dos cursos d’água que atravessam a zona urbana de Belo Horizonte apresentado no XII Simpósio Brasileiro de Geografia Urbana.


¹ Existiam além desses cursos d’água citados outros que também percorriam a zona urbana, tais como o Córrego do Mendonça, do Zoológico, Mangabeiras, da Barroca etc. depois de canalizados foram posteriormente (e naturalmente) convertidos em coletores de esgotos, assim como os outros.

² A curva de 90º existente no Arrudas na Praça da Estação retinha as águas nos períodos de chuva e em conseqüência alagava toda a área adjacente ao Ribeirão fechando, inclusive, a foz dos córregos do Pastinho e Leitão que transbordavam causando grandes estragos. A solução encontrada no caso do Pastinho foi fazer uma segunda saída para o melhor escoamento das águas. Com o rebaixamento do leito do Arrudas no inicio dos anos 80 a foz dos dois córregos passaram a desaguar bem acima do nível das águas do ribeirão, diminuindo consideravelmente o risco de alagamentos, no entanto, nas grandes cheias ainda são susceptíveis.

³ A falta de conscientização da população naquela época era alarmante, os cursos d’água eram simplesmente tratados como deposito de lixo, pois para ela a água leva tudo que é indesejável nos centros urbanos como o lixo, esgotos, animais mortos etc. O Poder Público por sua vez não ajudava, faltava investimentos na área e o sistema de coleta de lixo estava à beira de um colapso. As enchentes, freqüentes nesse período levava para as ruas e avenidas todo o material depositado nos cursos d’água, aumentando ainda mais o desejo de ver os córregos erradicados da área urbana, ou seja, na verdade era esconder o “problema” debaixo do tapete. E a população apoiou e aplaudiu o fechamento dos cursos d’água.

³¹ O programa DRENURBS / NASCENTES lançado pela Prefeitura em 2001 e atualmente convertido em canalizações, propõe, entre outras coisas a “recuperação ambiental que implica em reverter a degradação em que se encontram os córregos não canalizados da cidade. A proposta de sanear os fundos de vale significa combater as causas da poluição das águas, esta originada não apenas nos fundos de vale como também e, principalmente, nas respectivas bacias de drenagem”. É um programa que foi lançado tardiamente, mas que já apresenta resultados em alguns pontos específicos da capital, apesar da contínua cobertura dos rios urbanos, no mínimo contraditório para não nos aprofundarmos mais. Para saber mais sobre o programa recomendo o acesso ao site http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ e acessar o link “programas e projetos”.



“Pela complexidade de sua fisionomia urbanística, Belo Horizonte gradua-se hoje entre os núcleos mais adiantados do país. Fluxos de população convergem de todos os quadrantes, atraídos pelas condições de vida econômica, social e cultural que aqui se lhes oferece. Em plena expansão demográfica, a cidade amplia-se em duplo sentido: horizontal e vertical assim na área geográfica aperfeiçoando concomitantemente seus aspectos arquitetônicos, como na esfera social e intelectual, dotada, a mais e mais dos recursos necessários ao conforto e à beleza das cidades modernas, e cada vez mais florescente nas atividades artísticas e cientificas por suas academias e órgãos culturais.” Relatório do prefeito Juscelino Kubitscheck de 1941.


Antiga sede da Fazenda do Leitão desapropriada em 1894 quando da construção da capital. No casarão foi fundado o Museu Histórico de Belo Horizonte em 1943. Na escadaria do casarão à direita está o Sr. Abílio Barreto, idealizador e primeiro diretor do Museu.
Fonte: APM

    Belo Horizonte tinha cerca de 214.000 habitantes no alvorecer da década de 40. A cidade se expandia continuadamente para o oeste devido às vilas que haviam sido criadas anos antes e principais responsáveis por esse crescimento da malha urbana.
   O notável crescimento urbano verificado a partir de 1930 levou a Prefeitura a elaborar uma nova planta cadastral no inicio da década de 40. Ela ficou pronta em 1942 e nos apresenta em detalhes os equipamentos que existiam em cada quarteirão da zona urbana, assim como os lotes de uso comercial ou residencial¹ e as divisões da cidade e os seus limites. Outro fator para a elaboração de uma nova Planta era a necessidade de se fixar os novos limites da cidade devido à expansão urbana, como se vê no mapa abaixo.


Mapa do Município de Belo Horizonte de 1940 onde já se vê a necessidade de se estabelecer novos limites com os distritos e os municípios vizinhos.
Fonte: Acervo MHAB


Parte da Planta Cadastral elaborada na gestão JK.
Fonte: APCBH

    Nos anos 30 Belo Horizonte havia começado a exercer influencia sobre as demais regiões do estado. Nos anos 40 essa influencia se consolidou definitivamente extrapolando ate mesmo os limites do estado.
   Havia sido criada em 1936 uma Zona Industrial na capital, mais precisamente ao longo do Ribeirão Arrudas e as linhas ferroviárias entre o Barro Preto e a Ponte do Perrela. Como essa área não podia comportar indústrias pesadas tornou-se necessária a criação de uma Cidade Industrial nas proximidades da capital. Ela foi criada em 1941 e inaugurada cinco anos depois. O principal acesso a ela dava-se pela Avenida Amazonas, prolongada na gestão JK para atender a essa região e aos bairros da porção oeste da capital. Visando a melhoria da via foi demolida a primitiva ponte sobre o Ribeirão Arrudas na Gameleira, a primeira ponte em concreto armado construída em Belo Horizonte nos anos 10 e em seu lugar construiu-se uma mais larga e que existe até os dias atuais. Na verdade a cidade industrial de fato começou a alavancar somente a partir da década de 50.
A capital apresentava desde os primeiros anos do Século XX um crescimento periferia-centro. Os motivos desse crescimento já foram abordados em artigos anteriores, não sendo necessário escrevermos novamente sobre ele. Em contraposição desse crescimento os serviços de infra-estrutura urbana eram executados no sentido centro-periferia. Essa divergência prejudicou consideravelmente a melhoria dos bairros e vilas que iam surgindo na Zona Suburbana que careciam muitas vezes de água, luz esgotos etc. A partir dos anos 30 e principalmente no decorrer dos anos 40 a prefeitura passou a priorizar a melhoria da infra-estrutura urbana nessas regiões, principalmente nos serviços de água e luz, imprescindíveis para o desenvolvimento urbano.


Área destinada a Zona Industrial na margem esquerda do Ribeirão Arrudas.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.

Devido ao vertiginoso crescimento de Belo Horizonte são implantadas em 1948 as Cidades Satélites. A medida visava solucionar os problemas decorrentes do crescimento, e preservar o bem estar da população prevista em 1897¹², como se lê nas palavras do Prefeito Octacílio Negrão de Lima em 1948:

“Belo Horizonte não tem possibilidades de oferecer os serviços de infra-estrutura demandados pela população crescente. Esta é a razão principal por que entendemos necessário criar as cidades satélites ao redor da cidade. O barreiro está destinado a ser a cidade satélite agrícola. A Cidade Industrial a meio caminho do Barreiro e de Belo Horizonte será o centro fabril; temos como cidade de turismo e diversão a Pampulha. Venda Nova constituirá um belo centro residencial, uma verdadeira cidade popular. Como centro de atração desse conjunto harmônico ficará Belo Horizonte. Conseguindo esse objetivo, a capital de Minas poderá comportar 1 milhão de habitantes, confortavelmente instalados, bem servidos de utilidades e vivendo felizes”.

Esse planejamento feito nos mostra que se desconheciam (ou ignoravam) as funções de uma cidade do porte de Belo Horizonte, que naquela época já se apresentava como um pólo centralizador no Estado exercia. Uma capital é um organismo vivo que acumula várias funções, sejam administrativas, comerciais, industriais, residenciais etc. Planejar uma setorização das funções em cada núcleo urbano ao redor da capital naquele momento não foi uma medida correta e o vertiginoso crescimento demográfico e urbano a partir dos anos 50 comprovou isso. Era uma boa ideia, mas que na prática não deu certo e que atualmente abrigam as regionais da capital exercendo função de sub centros.
    No decorrer da década é definitivamente consolidada a verticalização da área central, com as construções dos edifícios Acaiaca, Financial, Sulacap/Sulamérica, Walmap entre outros. A legislação aprovada no inicio dos anos 30 e modificada no final dos anos 40 favoreceu a expansão dos arranha-céus no centro e o consequente adensamento, de modo que no final da década de 40 a sua fisionomia já estava completamente alterada e com ares de metropolização e modernidade, marcas da verticalização.


Cidade Satélite do Barreiro em 1949.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.


Edifício Acaiaca no final dos anos 40*.
Fonte: Acervo MHAB


Gráfico detalhando o crescimento das construções em Belo Horizonte a partir da segunda metade da década de 40.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.


Verticalização na área central em 1948 onde se vê os edifícios Acaiaca, Financial, Sulacap entre outros.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.

    A criação de bairros populares continuava a ser uma das prioridades da municipalidade. Como a cidade se expandia cada vez mais e os terrenos próximos à área central se valorizavam cada vez mais alguns bairros foram criados em áreas mais afastadas, o que ocasionava um maior gasto por parte da população que era obrigada a se deslocar para a área central por motivo de trabalho. Visando diminuir esse gasto do trabalhador e também diminuir os gastos da prefeitura com as grandes extensões de terrenos ela resolve construir em 1940 o bairro popular em terrenos de sua propriedade na Avenida Pedro I, atual Antonio Carlos em frente a Pedreira Prado Lopes. O bairro popular, mais conhecido por IAPI¹³ apresentava como principal característica os grandes prédios de apartamentos interligados por passarelas ainda existentes. O projeto inicial contava com onze edifícios, mas na verdade só se construíram nove.
    Data também da primeira metade da década de 40 a construção do bairro popular “Mato da Lenha” nas proximidades da Estrada do Cercadinho posteriormente bairro Salgado Filho. No final da década de 40 são construídas casas populares para os trabalhadores do Matadouro Modelo que se localizava no bairro São Paulo cujo acesso se fazia pela Rua Jacuí²¹.


Projeto do Conjunto IAPI no Bairro Popular.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Projeto de um edifício do Bairro Popular.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


O Conjunto IAPI na época de sua construção.
Fonte: APCBH/ASCOM*


Vista do Conjunto IAPI (bairro popular) e à esquerda parte do Hospital Municipal.
Fonte: APCBH/ASCOM


Bairro Popular Mato da Lenha, atual bairro Salgado Filho em 1948.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.

    A Avenida da Pampulha ou Pedro I, atual Antonio Carlos foi aberta em função da necessidade de melhoria do acesso a Pampulha, recém construída como um atrativo para o turismo e lazer da capital. O acesso se dava pela estrada de Venda Nova que já havia sido alargada e calçada nessa época, mas que não atendia os preceitos de uma cidade moderna e dinâmica, algumas das diretrizes que nortearam a administração JK. A Avenida aproveitou o trecho já aberto da Avenida Sanitária, sobre o Córrego Lagoinha entre o Ribeirão Arrudas e a Rua Formiga e a partir daí abriu-se a nova avenida em direção a Represa. Devido à abertura da Avenida e a instalação da Fabrica de Tecidos na Renascença o Córrego Cachoeirinha foi parcialmente canalizado, em grande parte com o capital privado.
    Com o Córrego da Barroca já canalizado e a terraplenagem realizada foi possível dar continuidade a Avenida Amazonas, cujo projeto da Comissão Construtora limitava a via a Avenida Barbacena e também favoreceu a ocupação do bairro Santo Agostinho. O prolongamento da Avenida se deu justamente para oeste, direção em que a cidade se expandia.
    A abertura e complementação da Avenida Amazonas e a construção da Cidade Industrial serviu para aumentar a expansão na direção oeste e em conseqüência se teve o aumento das ocupações de suas áreas adjacentes. O acesso a essas áreas antes era feito pelo Calafate e Prado Mineiro. A Rua de Contagem que levava a diversas vilas e ao balneário da Ressaca também foi responsável pela expansão para oeste.
    A pavimentação foi uma das benfeitorias que mais se fez na capital. Foi na gestão de JK que se asfaltou a Avenida Afonso Pena, Santos Dumont e Paraná, tudo isso dentro do seu projeto modernista para a capital. O calçamento retirado dessas vias foi utilizado nas ruas do bairro de Lourdes e Santo Agostinho.
   Alem da aberturas das vias já citadas a Prefeitura realizou a abertura de inúmeras ruas nas áreas da capital que apresentavam um notável crescimento como as Vilas Santo André e Maria Brasilina (bairro Sagrada Família) e em diversos bairros da zona suburbana, como por exemplo o Santa Efigênia a Serra.


Abertura da Rua Pedro Lessa na Pedreira Prado Lopes, visando a melhoria do acesso a Vila Santo André.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Avenida Sanitária (Pedro I), atual Antônio Carlos em 1941 nas imediações do Mercado da Lagoinha.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Abertura da Avenida Antônio Carlos e implantação dos trilhos de Bondes em frente ao local onde se construiria o Bairro Popular (IAPI) no inicio dos anos 40.
Fonte: Acervo MHAB


Abertura da Avenida Amazonas nas imediações da Avenida Barbacena.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Nova ponte da Gameleira construída quando da abertura da Avenida Amazonas. Ao fundo o bairro Nova Suiça.

    Diversas canalizações foram realizadas no decorrer dessa década. A continuação da canalização do Córrego do Pastinho e do Ribeirão Arrudas foram as mais notáveis. Grande parte do Arrudas foi canalizado em direção ao Calafate. Foram também realizadas a canalização do Córrego dos Pintos no Prado sobre o qual foi aberta a Avenida Francisco Sá entre a Avenida Amazonas e a Rua Platina, o Córrego da Mata (Avenida Silviano Brandão) e o córrego que atravessava parte do bairro de Santa Efigênia numa extensão entre a Avenida Francisco Sales e a Rua Grão Pará. Era uma área pantanosa e insalubre e que, aterrada em 1941 permitiu o prolongamento dessas vias e a ocupação por residências.


Calçamento da Avenida Pedro II.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Canalização do Córrego dos Pintos, sob a Avenida Francisco Sá.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Canalização do Córrego da Mata sob a Avenida Silviano Brandão.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.

Trecho do Córrego do Acaba Mundo já alargado, no cruzamento das ruas Professor Morais e Tomé de Souza.
Fonte: APCBH/ASCOM


Viaduto da Cachoeirinha construido na Rua Itapetinga, parte da antiga estrada de acesso a Pampulha e Venda Nova.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.

    A terraplanagem das áreas próximas ao Museu Histórico favoreceu a rápida urbanização dessa região durante a década de 40. Grande parte da Cidade Jardim estava reservada para a construção da cidade universitária (as faculdades de Farmácia e Odontologia foram construídas nesse período e ai funcionaram até poucos anos atrás) e quando se optou por construí-la na região da Pampulha em 1941 resolveu-se vender os lotes para a construção de um bairro para a elite além da cessão de terrenos para a Igreja Católica fundar algumas instituições de ensino.
   Conforme escrito no PLAMBEL²² a Prefeitura doou inúmeros terrenos a diversas entidades no período compreendido entre a segunda metade da década de 30 e a primeira metade da década de 40 visando promover a ocupação de áreas que interessavam a municipalidade urbaniza-las. Citamos como exemplo a Cidade Jardim que recebeu colégios católicos e algumas faculdades, todas instaladas em terrenos doados por ela. A área no entorno do Seminário Coração Eucarístico, construído em 1926 também foram doadas a Igreja Católica que a loteou posteriormente formando os atuais bairros Dom Cabral e Coração Eucarístico.
    Os anos 40 foi uma década marcada pelas desapropriações. As desapropriações em massa ocorriam na verdade desde a década de 30, sendo a mais notável delas as terras em que se construiu a Lagoa da Pampulha. No inicio da década de 40 as desapropriações para a construção da cidade universitária e cidade industrial foram as de maior vulto. Ocorreu também a desapropriação de terras para a construção da Escola Técnica Federal, atual CEFET.


Terraplenagem na Cidade Jardim. Ao fundo o Colégio Loyola e a Avenida do Contono recém aberta.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.

Operários trabalhando na regularização das ruas na Cidade Jardim em 1949. Ao fundo o Casarão da Fazenda do Leitão já reformado e transformado em Museu.
Fonte: BH Nostalgia


Calçamento da Avenida Olegário Maciel.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.


Prolongamento da Avenida Afonso Pena acima da Praça do Cruzeiro. A direita uma parte da Favela do Pindura Saia. A intenção da municipalidade ao realizar essa obra era de construir um túnel entre Belo Horizonte e Nova Lima para facilitar o acesso ao Rio de Janeiro, feito nessa época a partir da Estrada do Taquaril, sinuosa e extremamente perigosa.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Ponte sobre o Ribeirão Arrudas no final da Rua Pernambuco, na região central.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.


Rua Monte Santo após a conclusão do seu calçamento em 1948.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.

    Desde a sua inauguração Belo Horizonte carecia de um teatro que comportasse um numero significativo de pessoas. O Teatro Soucasseaux inaugurado em 1899 funcionou provisoriamente em um dos galpões da Comissão Construtora. Em 1906 começaram as obras do Teatro Municipal, no local do primitivo teatro. Ele foi, de fato por muito tempo o único teatro de Belo Horizonte e no inicio dos anos 40 passava por uma reforma visando atender às necessidades da população da capital. Característico da administração JK o antigo teatro foi vendido, se transformando no Cine Metrópole e teve-se inicio as obras do novo teatro, cuja autoria era de Oscar Niemeyer e localizado em uma das extremidades do Parque Municipal. Vale registrar que a construção do novo teatro mutilou ainda mais o Parque, suprimindo boa parte da sua extremidade voltada para a Avenida Afonso Pena. Foi nesse período em que, visando melhorar a interação da população com o Parque Municipal a Prefeitura opta pela retirada das grades que o separavam das vias, permanecendo assim até meados dos anos 70.
   Como as obras do Teatro se encontravam paralisadas em 1949 é construído, também no Parque Municipal o Teatro de Emergência visando suprir a falta de casas de teatro na capital.

Parque Municipal sem as grades.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Teatro de Emergência inaugurado no Parque Municipal em 1949.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1949.

O Complexo da Pampulha

    No inicio da década de 40 o Prefeito JK chamou o urbanista francês Donat Alfred Agache com o intuito de organizar e planejar áreas para a expansão urbana da capital. Entre outras medidas o urbanista sugere que deveria se construir uma cidade satélite na Pampulha visando o cultivo das terras ao redor da Represa para o abastecimento de Belo Horizonte. Juscelino Kubitscheck resolve não adotar a sugestão do urbanista optando por construir ali um conjunto arquitetônico e paisagístico, que se tornaria um marco da arquitetura modernista no Brasil.
    A represa construída na gestão de Octacílio Negrão de Lima tinha como finalidade abastecer a capital e servia para a prática de esportes aquáticos. Na gestão JK a região se tornou a principal medida da Municipalidade para projetar a capital de Minas como uma capital moderna em meio ao tradicionalismo reinante no estado. Era a recuperação do ideal no qual os republicanos da nascente republica se apoiaram para levar adiante a ideia de uma nova capital para o estado, o modernismo que romperia com o passado colonial.
   A Represa da Pampulha foi construída na calha do Ribeirão Pampulha, formado pelas águas dos Córregos Ressaca e Sarandi além de outros cursos d'água tributários do Ribeirão. Após a sua construção houve um descaso em relação à preservação das nascentes da bacia do Ribeirão e devido à ocupação desordenada das cabeceiras do Ribeirão e do conseqüente desmatamento a Represa, inicialmente destinada ao abastecimento de água da capital foi transformada em área de lazer para a população belo-horizontina e amplamente utilizada pela administração JK para promover a capital como uma capital moderna e também como um atrativo turístico de uma cidade de meia idade. Para se ter uma ideia da importância dada a Pampulha no relatório apresentado ao Conselho Deliberativo em 1942 pelo Prefeito foram 32 páginas dedicadas a explicar e exaltar o conjunto arquitetônico e paisagístico da Pampulha.
   O interessante é que a Represa fornecia água somente para os bairros nobres que foram surgindo na região da Pampulha, ou seja, uma represa destinada a desafogar, literalmente o abastecimento de água da capital foi utilizada somente para o abastecimento de uma classe privilegiada.
   A Pampulha impulsionou definitivamente o crescimento na direção norte de Belo Horizonte juntamente com o Aeroporto e a cidade universitária, criada no inicio da década.


Parte da Represa da Pampulha e a direita o Cassino.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Barragem da Pampulha com o Lago ainda em formação.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Barragem da Pampulha concluída.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.


Vista do Lago e a esquerda a Casa do Baile.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941.

   Nos últimos anos da década de 40 foram retomados com uma maior intensidade os serviços de calçamento e esgotos em toda a capital. Esses serviços não acompanhavam satisfatoriamente o crescimento urbano, pois muitas das ruas abertas, principalmente nas seções suburbanas ainda eram de terra. Já os esgotos causavam um transtorno maior para a municipalidade, devido a falta de redes próprias eles eram jogados in natura nos cursos d’água que atravessavam a capital, aumentando o risco de doenças e poluindo as suas águas, principalmente as do Ribeirão Arrudas. Apesar da construção e a reparação das redes o problema foi parcialmente resolvido, pois os esgotos eram despejados sem tratamento no final da canalização do Arrudas, empurrando o problema para as populações que habitavam o seu vale.
   Belo Horizonte chegou ao final da década de 40 superando todas as expectativas de crescimento previstas com um pouco mais de 350.000 habitantes, um crescimento de cerca de 65%. A já cinqüentenária cidade havia deixado para trás parte do seu passado conservador, mesmo tendo nascida como uma cidade moderna, que negava as suas origens coloniais. A capital no decorrer da década se afirmou em definitivo como um centro industrial, comercial e financeiro além da função administrativa. A Pampulha e os arranha-céus do centro ditaram a arquitetura das edificações por vários anos. O crescimento urbano foi ditado pelas duas obras de maior vultuosidade: a Cidade Industrial, que impulsionou ainda mais o crescimento na direção oeste e a Pampulha na direção norte. A verticalização, consolidada na área central atendia na sua quase totalidade a fins comerciais, coisa que irá mudar a partir da década de 50 com a construção dos primeiros condomínios residências acompanhando o boom populacional que colocou a capital como uma das grandes metrópoles do país nas décadas seguintes.


Praça Rui Barbosa com os arranha céus ao fundo em 1948.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1948.


Vista da Praça Sete e parte do bairro da Floresta em 1949. Ao fundo o Edifício Dantês em construção.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1948.


¹ Vi essa Planta pela primeira vez em 1999 no extinto site www.belohorizonte.com.br. Esse site disponibilizava as Plantas Cadastrais e imagens de Satélite entre as décadas de 40 e 90, uma joia para qualquer pessoa que tenha interesse em pesquisar nessa área. O site, se não me engano saiu do ar há cerca de oito anos e espero que um dia volte, pois facilitaria (e muito) as pesquisas sobre a expansão urbana e a ocupação espacial de Belo Horizonte.

¹² Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima apresentado a Câmara Municipal em 1949.

¹³ O nome IAPI vem do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, que foi o financiador da obra.

²¹ A Rua Jacuí fazia parte das antigas Estradas Municipais que cortavam Belo Horizonte. Ela também dava acesso aos depósitos da Esso onde hoje está a Concessionária Garra. As Ruas Padre Eustáquio, Itapetinga, Isabel Bueno, Platina, Padre Pedro Pinto entre outras faziam parte dessas Rodovias Municipais que hoje, na sua maioria foram absorvidas pela malha urbana e transformadas em vias coletoras. (Informações fornecidas pelo Engenheiro Flavio Edenlar Pereira da Silva).

²² O processo de desenvolvimento de Belo Horizonte, 1979 p. 249

* ASCOM - Assessoria de Comunicação Social do Município (as imagens estão sob a guarda do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte). Para saber mais sobre a arquitetura da capital recomendo o excelente site www.arqbh.com.br

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

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