Hoje (01/06) eu li numa reportagem um parágrafo dizendo que, nos anos 70 um determinado córrego da capital trazia transtornos para a população da região em questão, perturbando-os e atrasando a ocupação e o desenvolvimento urbano. Infelizmente esse pensamento ainda está vigente na cabeça das pessoas, usufruir de um bem natural e descartá-lo quando melhor convém. Como já escrevi em artigos anteriores, as cinco colônias agrícolas que se criou em Belo Horizonte a partir de 1897 foram assentadas nas vertentes dos principais córregos da capital, lembrando que a ocupação se restringia ao perímetro da Avenida do Contorno e adjacências (Zona Suburbana). Algum tempo após a anexação das colônias agrícolas a zona suburbana da capital os córregos foram sendo erradicados um a um, pois a política vigente da época os tratava como um “problema” que deveria deixar de existir e grande parte da população concordava com essa política, pois com água encanada e energia elétrica quem é que ia até um córrego buscar água ou lavar roupa, uma acomodação compreensível devido à melhoria das condições de vida iniciada no final do Século XIX e tão sonhada pelas populações periféricas. E um curso d’água não serve apenas para matar a sede e andar limpo, ele também ajuda a amenizar o clima de uma região, lembrando que as condições ambientais associadas a eles proporcionam um habitat único, com uma biodiversidade extremamente rica entre outros fatores.
Torço para que um dia as pessoas entendam a importância que um curso d’água tem para o meio ambiente e que passem a tratá-los com o respeito que eles merecem. Não posso dizer o mesmo para os que estão sepultados debaixo das construções e das vias de Belo Horizonte, que a meu ver eles foram erradicados do meio por um largo período de tempo. Realmente, no que diz respeito ao desenvolvimento urbano eles podem ser considerados por alguns um entrave, mas atualmente existem inúmeras possibilidades para uma bem sucedida harmonização entre a cidade e os cursos d’água. Mas os considerar perturbadores, sem comentários.
A citação abaixo, que eu escrevi no artigo “Qualquer semelhança não é mera coincidência: os cursos d’água que atravessam a capital” retrata exatamente o pensamento retrógado que eu, equivocadamente achei que havia ficado canalizado e coberto junto com os córregos nos anos 60 e 70. As imagens abaixo servem como exemplo para ilustrar o que eu escrevi acima. Em grande parte da área urbana da capital todos tiveram o mesmo destino do Córrego do Acaba Mundo.

"A falta de conscientização da população naquela época era alarmante, os cursos d’água eram simplesmente tratados como deposito de lixo, pois para ela a água leva tudo que é indesejável nos centros urbanos como o lixo, esgotos, animais mortos etc. O Poder Público por sua vez não ajudava, faltava investimentos na área e o sistema de coleta de lixo estava à beira de um colapso. As enchentes, freqüentes nesse período levava para as ruas e avenidas todo o material depositado nos cursos d’água, aumentando ainda mais o desejo de ver os córregos erradicados da área urbana, ou seja, na verdade era esconder o “problema” debaixo do tapete. E a população apoiou e aplaudiu o fechamento dos cursos d’água".


Córrego do Acaba Mundo canalizado na Rua Professor Morais em 1963. É notável a harmonia da paisagem entre o córrego e o seu entorno. A foto acima foi tirada quando do inicio da cobertura do córrego para o alargamento da Rua Professor Morais e Avenida Afonso Pena e principalmente para a melhoria da salubridade da região.
Fonte: APCBH/ASCOM


O mesmo córrego sob a Rua Professor Morais em 2010.
Fonte: Foto do Autor

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis