“Bello Horizonte já não apresenta o aspecto tranqüilo e modesto que de ordinário tem as nossas cidades e villas do interior; (...) é ponto forçado para todos que desejam conhecer a terra mineira: o delineamento da cidade, as suas construcções publicas ou particulares, seu commercio, o mais importante de nossas praças, institutos de ensino e associações de beneficência, a vida local no que ela offerece de particular à observação, dão ao visitante idéia exacta do nosso progresso”. Relatório do prefeito Olyntho Meirelles de 1911.


Panorama de Belo Horizonte nos anos 1910 tirada nas proximidades da Rua Além Paraíba vendo-se uma parte da Colônia Carlos Prates, a área central e grande parte do bairro Funcionários. A direita a Avenida Paraopeba em conclusão, nas proximidades da praça Raul Soares.
Fonte: APCBH Coleção José Góes

Belo Horizonte contava com cerca de 30.000 habitantes no inicio da década de 1910. Com o passar dos anos a cidade se estruturava cada vez mais, proporcionando o seu embelezamento, com praças e ruas formosamente arborizadas e bem cuidadas, fato que chamava a atenção dos visitantes. As casas térreas e os sobrados que existiam no bairro Comercial datados da construção da capital vão dando lugar às casas comerciais, consolidando a marca registrada de Belo Horizonte em relação à arquitetura e a funcionalidade: as constantes construções e demolições requalificando o espaço urbano. Os prédios construídos nesse período demonstravam a prosperidade de seus proprietários com ricas decorações nas fachadas. Podemos citar como exemplo o Palacete Dantas, ainda existente na Avenida Cristovão Colombo e o edifício do antigo Banco Hipotecário e Agrícola na Praça Sete. A Rua da Bahia juntamente com a Avenida Afonso Pena consolidaram-se como o espaço de articulação urbana. Eram nessas vias que se dava o maior fluxo de pessoas, como podemos ver na imagem abaixo. Essas vias, juntamente com os trechos compreendidos na Rua da Bahia entre Timbiras e Afonso Pena, Espirito Santo entre Afonso Pena e Avenida do Comércio, Afonso Pena entre as Ruas da Bahia e Espirito Santo, e por toda a Rua dos Caetés, essa quase toda ocupada por comerciantes era a região mais movimentada da capital, em um período que, conforme dito anteriormente passava por uma total refuncionalização, passando a ser predominantemente comercial.


Mapa mostrando as áreas de maior fluxo de pessoas na região central nos anos 1910.


Região Central de Belo Horizonte nos anos 1910. A esquerda o Palácio Hotel que existiu onde hoje se encontra o Othon Palace.
Fonte: APM

As indústrias iam se instalando na área urbana, incentivadas pelos subsídios oferecidos pela Prefeitura. A área delimitada no inicio do Século no Barro Preto ainda não se encontrava totalmente ocupada pelas industrias que se concentraram principalmente nas imediações da Estação Central. Outras mais antigas se encontravam espalhadas por toda a Zona Urbana. As indústrias naquele tempo eram pequenas e, com o passar dos anos tornou-se necessária a criação de uma área exclusiva para tais funções, maior e mais bem estruturada. A conclusão da Avenida Paraopeba, no mandato do Prefeito Cornélio Vaz de Melo melhorou o acesso ao Barro Preto, valorizando os lotes e facilitando o acesso ao Prado Mineiro e o Calafate.


Fábrica de Punhos e Colarinhos, fundada em 1907.
Fonte: APM


Residência construída na Zona Suburbana. Foto de 1911.
Fonte: APM

A malha urbana crescia cada vez mais devido a grande venda de lotes na Zona Urbana, forçando a abertura das ruas já planejadas. O Prefeito Benjamin Jacob escreveu em seu relatório de 1908 que “A cidade expande-se a olhos vistos, desapparecem dia a dia os claros existentes nas ruas, crescem a população e suas exigências, e, entretanto, circunstâncias econômicas impedem que os melhoramentos introduzidos, e que não são poucos, acompanhem com a mesma rapidez o desenvolvimento da capital.”
Na verdade não era bem isso que ocorria pois os lotes que se encontravam na mão dos especuladores formavam verdadeiros “vazios” na Zona Urbana, retardando o seu desenvolvimento. Em algumas regiões a cidade parecia um tabuleiro de xadrez sem peças. Em relação à crise econômica citada a Prefeitura, na necessidade de contrair um novo empréstimo visando honrar os compromissos já assumidos e continuar o desenvolvimento da capital teve que fazer um acerto de contas com o Estado, no qual dependia economicamente desde a transferência da capital.
Os Grupos Escolares iam sendo construidos e outros Grupos transferiram-se para a capital, vindos de Sabará e de Ouro Preto. Em Dezembro de 1911 tem-se inicio as obras dos grupos Escolares Bueno Brandão e Barão do Rio Branco, ambos na Avenida Paraúna, atual Getúlio Vargas. O local escolhido decretou a extinção da Praça Alexandre Stockler, que não existia no projeto original da capital e foi criada após a sua inauguração.


Sobrado ainda existente na esquina das Ruas da Bahia e Timbiras. Foto de 1911. Fonte: APM


Fachada do Grupo Escolar Barão do Rio Branco recém construído.
Fonte: APM

Em 1910 realizou-se a primeira obra com concreto armado no município, a antiga ponte de acesso à Fazenda da Gameleira. O concreto armado, como veremos posteriormente foi um dos grandes responsáveis pelo aumento das construções em Belo Horizonte a partir dos anos 20. A antiga ponte foi demolida em 1943 para dar lugar a atual ponte existente sobre o Ribeirão Arrudas na Avenida Amazonas. Em 1915 ocorre a aprovação da primeira construção particular em concreto armado da capital. O edifício foi construído na área central, no quarteirão do Grande Hotel na Rua da Bahia.
O Governo do Estado, sem verba para a construção do edifício do Congresso no qual se via apenas os alicerces deu permissão para a Prefeitura murar o terreno, atualmente ocupados pelos edifícios dos Correios e a sede da Prefeitura. Essa iniciativa de mura-lo é o inicio da preocupação da Prefeitura em realizar benfeitorias visando o embelezamento da cidade. Nessa mesma década a Prefeitura encomenda as Plantas Cadastrais de diversas cidades da Europa e América do Norte visando novas ideias para o embelezamento da capital.
O Mercado Municipal ainda atendia a população, não sendo necessário investimentos por parte da Municipalidade. Em 1910 os moradores do bairro Funcionários reivindicaram a criação de um Mercado Municipal no bairro evitando assim o deslocamento dela até o Centro para a aquisição dos produtos. Essa antiga reivindicação só foi atendida no inicio dos anos 20 tendo o Mercado durado apenas um ano, talvez devido à melhoria do transporte público entre este bairro e o Mercado Municipal.
Foi criado em Novembro de 1915 uma nova vila operária ou proletária na região da I suburbana (bairro Anchieta) e no final de 1919 uma outra foi criada no bairro Floresta, nas imediações da Rua Varginha. Já existia o bairro operário criando anos antes no Barro Preto e, com a valorização dos lotes urbanos juntamente com a especulação imobiliária promovida pelo Estado a Prefeitura resolveu remove-los do Barro Preto, optando por criar vilas na Zona Suburbana, onde possuía ainda terrenos consideráveis. A intenção da Municipalidade era clara, conforme relatório de 1918: 

“No intuito de localizar definitivamente o proletariado desta Capital, que se acha na sua quase totallidade installado provisoriamente em terrenos da zona urbana, que esta Prefeitura não poderá ceder para construcção de casinhas de valor mínimo, sinão a titulo precário, como até agora (1918) foi feito, deseja esta administração, crear Villas Proletárias¹(...)”. 

Era o inicio do processo de “expulsão” da população de baixa renda dos limites da Zona Urbana. 
O calçamento das ruas, principalmente por paralelepípedos foi prioridade por parte da Prefeitura durante toda a década. As ruas mal calçadas acarretavam inúmeros transtornos para a população e nas épocas das chuvas a enxurrada levava o calçamento macadamizado, fazendo com que surgissem valas nas vias. Em algumas ruas, principalmente na Zona Suburbana as vias eram apenas cascalhadas. Outro serviço executado pela Prefeitura, reclamado há muito tempo pela população e principalmente pelos Correios foi a numeração das casas e a colocação de placas de identificação nas ruas e praças de Belo Horizonte.


Rua da Bahia em 1915, nas proximidades da Casa do Conde de Santa Marinha. Ao fundo o antigo Edificio dos Correios.
Fonte: BH Nostalgia


Rua Paraíba, nas proximidades da Escola de Arquitetura da UFMG.
Fonte: APM

As Colônias Agrícolas criadas logo após a inauguração da capital e que ocupavam grande parte da Zona Suburbana desenvolveram-se mais rapidamente do que a própria Zona Urbana devido ao menor valor dos terrenos, o que proporcionou a população, composta em sua maioria por imigrantes e operários a adquirir lotes. Devido a esse crescimento, que a colocou praticamente ligada à Zona Urbana em 1911 são emancipadas as Colônias Américo Werneck (Sagrada Família e parte dos bairros de Santa Tereza e Horto), Adalberto Ferraz (bairro Anchieta), Bias Fortes (bairros Santa Efigênia e São Lucas) e Carlos Prates, no bairro de mesmo nome e parte do Prado. Em 1912 ocorre a incorporação das ex colônias emancipadas, juntamente com o povoado do Calafate a zona suburbana. Essa incorporação trouxe inúmeros benefícios para as ex colônias como iluminação pública e residencial, ruas calçadas e transporte coletivo. Porém a Prefeitura também estendeu as obrigações relacionadas às construções para toda a área anexada visando à regulamentação das construções e lotes. Em pouco tempo as ex colônias agrícolas já estavam fundidas com a malha urbana da capital.
Em 1914 um Decreto emancipa a última das cinco colônias agrícolas que existiram na Zona Suburbana, a Colônia Afonso Pena (bairros Santo Antônio, Luxemburgo, São Bento, Cidade Jardim, Vila Paris e parte do bairro Santa Lúcia).

A cidade ainda era alimentada de energia elétrica proveniente, em grande parte da Usina do Rio de Pedras e da Usina do Freitas. Inaugurou-se em 1912 a Usina de Gás Pobre, destinada a funcionar como uma reserva de energia no caso de falta de energia elétrica, sendo construída em frente à distribuidora na Avenida Afonso Pena. A Usina funcionava como complementação pois nessa época as interrupções do fornecimento de energia elétrica estavam cada vez mais frequentes e o seu fornecimento para os estabelecimentos industriais já haviam atingido o limite.

Com o término da 1ª Guerra Mundial retomam-se os projetos de modernização relacionados à infra-estrutura urbana e o embelezamento de Belo horizonte, parados desde a crise econômica causada pela guerra.
Belo Horizonte chegou ao final da década com uma população de 54.000 habitantes. A área compreendida entre a Avenida do Contorno e Avenida Cristóvão Colombo abrangendo o Centro e o Funcionários era o espaço mais adensado da Zona Urbana. Circundada pela Avenida do Contorno, a área planejada praticamente só tinha espaço para os profissionais liberais, comerciantes e funcionários públicos. Assim, às margens da Avenida do Contorno, foram surgindo bairros fora do planejamento oficial, de acordo com a demanda populacional e geralmente ocupada pelas camadas mais pobres. A Zona Suburbana com as terras das antigas colônias anexadas a ela tornara-se a parte mais populosa da capital e futura área destinada à expansão urbana. A década de 10 foi na verdade uma década de mudanças significativas no espaço urbano até os anos de 1912-1914. A partir daí com o aumento das matérias primas e dos artigos de primeira necessidade as obras foram paradas e o desenvolvimento da capital foi temporariamente interrompido, sendo retomado apenas em 1919.


Rua Gonçalves Dias nos anos 1910.
Fonte: APM



Mapa dos estudos realizados pela CCNC para o abastecimento de água da Capital destacando os Reservatórios do Cruzeiro e do Cercadinho.
Fonte: APCBH Acervo CCNC


Ponte que existiu até meados dos anos 1920 no Ribeirão Arrudas, na altura do bairro Esplanada.
Fonte: APM




Estação Central nos anos 1910, poucos anos antes da construção da nova Estação da EFCB e da Estação da EFOM.
Fonte: APM


Montagem feita em 1911 mostrando os veículos adquiridos pela Prefeitura e os seus diversos usos.
Fonte: OMNIBUS - uma historia dos transportes coletivos em Belo Horizonte; FJP. Centro de Estudos Históricos e Culturais.


²O Reservatório, ainda existente localiza-se no bairro Cruzeiro.
³O Reservatório localizava-se no local da atual sede da Copasa, na Rua Carangola. Por se tratar de um tema mais abrangente (o abastecimento de água), posteriormente escreverei sobre eles.

6 comentários:

  1. como é bom ver o ínicio da minha cidade....

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  2. Parabéns pelo blog! Ótimo espaço para conhecer melhor a história de BH. Sinto apenas a falta das referências textuais que você utiliza.

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    1. Olá Priscilla, muito obrigado! As referencias costumam aparecer nos textos, ou como citações ou nas notas de rodapé (nesse caso no final dos artigos) e também estão no links na aba superior direita do blog. A base bibliográfica do blog em geral são os documentos e relatórios dos prefeitos, reportagens dos períodos abordados e artigos e teses. Qualquer coisa é só entrar em contato pelo email que consta na aba à direita. Obrigado!

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  3. Muito bacana a historia do nosso povo e de BH!

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  4. Prezado Alessandro.
    Tenho acompanhado com vivo interesse suas publicações e quero parabenizá-lo pela iniciativa.
    Nasci em 1954 aqui mesmo em Belo Horizonte e testemunhei toda a transformação da cidade nos últimos 60 anos. E que transformação!
    Estou escrevendo sobre o Conjunto Sulamérica-Sulacap e gostaria de publicar, com sua licença, o "mapa mostrando as áreas de maior fluxo de pessoas na região central nos anos 1910", que aparece nesta matéria.
    É possível disponibilizá-lo?
    Agradeço antecipadamente e o convido a visitar o meu blog http://caminhada.org/
    Grande abraço.

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    1. Olá José Walker obrigado pelo contato!Muito legal o seu blog, gostei muito! Com certeza, me passe um email para o borsagli@gmail.com que te encaminho a imagem pode ser? Obrigado e abraço!

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