O poluído córrego do Gentio na Rua Outono em 1966, cujas margens eram utilizadas para o despejo de lixo e entulho dos moradores da região e mesmo de locais mais distantes. A imagem atesta o desrespeito da população e a negligencia do Poder Público em relação aos cursos d'água de Belo Horizonte.
Fonte: APCBH/ASCOM

O córrego do Gentio, principal afluente do córrego do Acaba Mundo, tem as suas nascentes localizadas na Serra do Curral, canalizadas atualmente sob as ruas Francisco Deslandes, Vitorio Marçola e Odilon Braga (esta considerada a verdadeira nascente do córrego, próximo a Fundação Guignard). A região atravessada pelo curso d’água, assim como ocorreu com a sub bacia do Acaba Mundo, foi inserida nas terras da Colônia Agrícola Adalberto Ferraz, que existiu onde estão atualmente os bairros Carno, Sion, Anchieta e Cruzeiro. Após a anexação à 1ª Seção Suburbana em 1912 as terras pertencentes a bacia do córrego do Gentio foram sendo gradativamente ocupadas, apesar da falta de infra estrutura urbana nessa porção da capital, escassamente povoada. 
Assim como os demais cursos d’água que atravessam a zona urbana de Belo Horizonte compreendida dentro dos limites da Avenida do Contorno, o córrego do Gentio sofreu ao longo do Século XX o mesmo processo de degradação e poluição de suas águas devido a ocupação das suas vertentes, inicialmente dos lotes mais próximos a Avenida do Contorno e Rua Grão Mogol, e a partir da segunda metade da década de 40 as vertentes a direita da Rua Pium i, correspondentes aos bairros Carmo e Anchieta e a região da caixa d’água do Cruzeiro, nesse período ocupada pela Favela do Pindura Saia. Tal degradação se deu devido a falta de investimentos na infra estrutura urbana (principalmente o saneamento) e da venda de diversos lotes que davam fundo para o curso d’água, onde o despejo de esgotos e de lixo era feito diretamente nele.

Córrego do Gentio na Planta Cadastral de 1928.
Fonte: APCBH

O córrego do Gentio e as suas respectivas ruas construídas sobre o seu leito em imagem aérea de 1953. À direita parte do córrego do Acaba Mundo, encaixotado atualmente sob a Avenida Uruguai.
Fonte: APCBH

Na década de 60, a região sul de Belo Horizonte passou a ser prioritária para a expansão urbana da capital, visando às camadas mais abastadas (recomendo a leitura do artigo Metamorfoses Urbanas: Avenida Afonso Pena). A arrecadação aumentaria com a urbanização das vertentes e canalização dos córregos já poluídos da região, no caso aqui o Gentio e seus afluentes, convertidos em emissários de esgotos que não davam conta dos efluentes das residências, cuja ocupação seguia para as suas cabeceiras na Serra do Curral. E sobre o seu leito seriam abertas as principais vias de acesso aos bairros, no caso as Ruas Odilon Braga e Vitorio Marçola, além da Avenida Francisco Deslandes.
Nesse contexto, para a melhoria viária e sanitária, visto que os córregos se encontravam extremamente poluídos foi empreendida pela Prefeitura o alargamento do canal e a cobertura do Acaba Mundo entre os anos de 1963 e 1965 (recomendo a leitura do artigo Qualquer semelhança não é mera coincidência – o destino dos cursos d’água que atravessam a capital) e em 1966 a canalização e cobertura do córrego do Gentio e seus afluentes, além do alargamento do canal coberto na Rua Outono. Tal obra viria a se arrastar por mais de dois anos, visto que a obra, inserida no programa Nova BH 66¹ foi prejudicada com a descontinuação de grande parte do programa pela gestão Souza Lima. Tal obra foi vista por grande parte dos moradores da região como a solução dos problemas das enchentes nos períodos chuvosos e mesmo sanitários, visto que os esgotos eram despejados diretamente no leito do córrego e continuam sendo, apesar do seu canal atualmente não comportar tal volume²

Alargamento da canalização e cobertura do córrego do Gentio na Rua Outono em 1966, dentro do programa Nova BH 66. Nesse período, a cobertura dos cursos d'água e o asfaltamento das vias existentes nas margens dos rios eram vistos como um embelezamento da paisagem urbana.
Fonte: APCBH/ASCOM 

Inicio da antiga canalização do Gentio, no cruzamento das Ruas Outono e Andalizita em 1966.
Fonte: APCBH/ASCOM

Canalização e alargamento do canal do Gentio na Rua Andaluzita em 1966. 
Fonte: APCBH/ASCOM

Rua Vitorio Marçola no final da década de 1960. Abaixo da via corre atualmente um dos braços do córrego do Gentio.
Fonte: APCBH/ASCOM

Parte da Bacia do córrego do Acaba Mundo, onde aparece em destaque o curso atual do córrego do Gentio (encaixotado).
Fonte: PBH

Atualmente sabe-se que tais obras empregadas por toda Belo Horizonte não resolveram o problema das enchentes, na verdade agravou, visto que a impermeabilização do solo, a retirada das árvores e supressão de pequenas matas, a ocupação e o adensamento desenfreado das vertentes e dos fundos de vale (as famigeradas Avenidas “Sanitárias”) aumentou consideravelmente a vazão dos cursos d’água de Belo Horizonte. O Gentio, atualmente identificável pelos gradis nas ruas e pelo antigo leito, perceptível apenas na Rua Caldas é um dos clássicos exemplos de como não deve se tratar um curso d’água no meio urbano, ainda não assimilado pelo Poder Público, que continua a promover a cobertura do ribeirão Arrudas e agora (2013) anunciando o aumento do coeficiente de aproveitamento dos terrenos no vale do Arrudas, apesar do Decreto 4.408  de Janeiro de 1983 que proibia novas edificações ao longo dos cursos d’água da capital, em particular o Arrudas, lembrando que tanto o bairro da Lagoinha quanto o de Santa Tereza, ameaçados pelo faraônico projeto Nova BH (2013) pertencem a bacia do Arrudas. Transcrevo abaixo o Decreto:

O Prefeito de Belo Horizonte, no uso de suas atribuições, considerando:

I - que as disposições do item III, do art. IV, da Lei Federal 6.766, de 19.12.79 e o disposto nos artigos 52 combinado com o art. 9º, § 1º da Lei Municipal nº 2.662, de 29.11.76, justificam as determinações deste Decreto;
II - que a inobservância daqueles dispositivos tem sido fator de graves e irreparáveis danos causados à população, com toda a sequela de tragédias, que, não raro, se traduzem na desolação e no lamentável desenlace fatal de muitos munícipes;
III - que, além das providências já tomadas para diminuição dos transtornos ocasionados aos moradores da região assolada pelas enchentes, compete ao Poder Público tomar medidas acauteladoras, que previnam a repetição futura dos lamentáveis acontecimentos, que tanto sofrimento e prejuízos causaram à população, decreta:

Art. 1º - As faixas de terreno que margeiam os cursos d’água existentes em Belo Horizonte, notadamente as que se situam de um e outro lado do Ribeirão do Arrudas e seus afluentes, são classificados "nom aedificandi", na forma da Lei Federal nº6.766/79. 
Art. 2º - O Município, sobre não aprovar qualquer edificação nas referidas áreas, promoverá a erradicação das construções clandestinas ali já existentes e providenciará a remoção dos moradores para locais adequados. 
Art. 3º - A Prefeitura fiscalizará permanentemente as regiões delimitadas para evitar novas invasões, e demolirá as que ali se construírem, sem qualquer ressarcimento aos que tentarem a violação das Leis e do disposto neste Decreto. 
Art. 4º - Revogadas as disposições em contrário, este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. 

Belo Horizonte, 13 de Janeiro de 1983

Júlio Arnoldo Laender
Prefeito




* Posteriormente divulgarei aqui e pela página do Facebook noticias mais detalhadas sobre a história de alguns cursos d'água de Belo Horizonte. Aguardem que virão novidades.

¹ Esse programa, lançado após o Golpe Militar de 1964 marca a prioridade do veiculo nas politicas urbanas da capital mineira, e a consequente perda de espaço na urbs pelo pedestre. Uma das prioridades do programa era a canalização e cobertura dos córregos para a ampliação das vias destinadas aos veículos individuais e coletivos movidos a Diesel. Qualquer semelhança com o Nova BH de 2013 NÃO é mera coincidência...

² Vi e ainda vejo o esgoto transbordar em diversos pontos do bairro nesses últimos meses, provavelmente devido a impossibilidade do canal e dos emissários comportar tamanho volume de efluentes.
Pequena retificação do leito do Ribeirão Arrudas em 1960.
Fonte: APCBH/ASCOM


A imagem acima apresenta uma retificação no leito do ribeirão Arrudas, ou um desvio, como está sinalizada a imagem oficialmente, realizada na zona suburbana de Belo Horizonte, mais precisamente na região leste da capital, entre os bairros de Santa Tereza e Santa Efigênia. Tal obra, empreendida em Junho de 1960 visava suprimir um dos inúmeros meandros do curso d’água, possivelmente para melhorar a sua vazão, talvez para aumentar a área urbanizada do entorno do ribeirão ou mesmo diminuir a magnitude das enchentes que assolavam a região no período, lembrando que a canalização do Arrudas terminava a cerca de três quilômetros à montante do local retificado, e a velocidade das águas do ribeirão nos períodos chuvosos era notável, visto que a canalização facilitava o escoamento e a drenagem da zona urbana planejada, em detrimento aos bairros da zona suburbana à jusante da ponte do Perrela, ponto final da canalização. 
A pequena retificação* foi realizada nas proximidades da primitiva ponte do Cardoso, que ligava os bairros de Santa Tereza e Santa Efigênia, substituída na década de 80 pelo viaduto que liga a Avenida dos Andradas ao bairro de Santa Tereza. É importante ressaltar que nesse mesmo local existiu a parada do Cardoso, ponto de desembarque dos passageiros dos trens de Subúrbio da Central do Brasil. O entorno do trecho retificado em 1960 foi ocupado entre as décadas de 60 e 80 pelas favelas União e Gogó da Ema na margem esquerda do ribeirão, e pela Vila São Rafael, na margem direita.
Após a enchente de 1983 a retificação desapareceu junto com as casas remanescentes das favelas que não sucumbiram às águas do ribeirão, dando lugar a retificação e a canalização, estendida desde a Avenida do Contorno até a Avenida Silviano Brandão, na confluência do ribeirão com o córrego da Mata.

Canal do ribeirão após a pequena retificação empreendida em 1960. Ao fundo parte do bairro Pompéia.
Fonte: APCBH/ASCOM

Local da retificação do ribeirão sinalizado na Planta de 1961, à direta da linha férrea da Central do Brasil.
Fonte: APM

A retificação vista da margem direita do Arrudas, bairro de Santa Efigênia.
Fonte: APCBH/ASCOM

Ribeirão Arrudas na região leste de BH no final da década de 70. Abaixo a Favela Gogó da Ema, desaparecida quando da retificação e canalização e Vila São Rafael. À esquerda da imagem está sinalizado o local da retificação, logo abaixo da ponte do Cardoso.
Fonte: APCBH Coleção José Góes

Trecho logo acima da retificação em 1983, na margem esquerda do Arrudas. Em primeiro plano as obras de extensão da retificação paralisadas, ao fundo as casas remanescentes da Favela União junto a margem erodida do ribeirão e parte das Ruas Mármore e Conselheiro Rocha.
Fonte: Acervo PLAMBEL


* Toda e qualquer retificação de um curso d'água, seja ela pequena ou não acarreta uma mudança na dinâmica do curso d'água, desde a extinção do seu leito original, o amento da velocidade das águas, a agressão à morfologia do local, ao assoreamento do curso d'água até a um impacto na vida aquática e na fauna e flora terrestre, em um âmbito local e mesmo regional. Tal técnica empregada para a solução das enchentes no meio urbano e para a melhoria da drenagem urbana provoca a extinção das várzeas e o desaparecimento do traçado original do curso d'água, ao mesmo tempo em que se "ganha" porções de terra estratégicas para os agentes imobiliários. Nesse momento em que se celebra a conclusão de mais um trecho do "magnifico" Boulevard Arrudas, sem dúvida, se torna necessária uma profunda reflexão da sociedade e do Poder Público em relação a forma em que se trata os cursos d'água no meio urbano, tão discutida neste blog, para que tais erros não sejam cometidos nos centros urbanos brasileiros que estão em processo de desenvolvimento e que certamente irão apresentar problemas semelhantes, no que diz respeito a ocupação dos fundos de vale e das várzeas dos cursos d'água, entre outras coisas.
Córrego do Leitão e bairro Cidade Jardim em 1955. Sobre o córrego seria aberta a Avenida Prudente de Morais em 1970, visando a melhoria da mobilidade viária para os novos bairros da região sul de Belo Horizonte. 
Fonte: APCBH/ Coleção José Góes

No final do mês de Maio Belo Horizonte foi surpreendida com uma placa instalada na Rua Padre Belchior, anunciando a renaturalização do córrego do Leitão, no trecho compreendido entre a Rua e as Avenidas Augusto de Lima e Amazonas. Os cursos d'água que atravessam a Zona Urbana de Belo Horizonte já foram tema de diversos artigos do Blog, por ser um tema bem singular em nossa história urbana.
Ignorados pelo Poder Público, os cursos d’água que atravessam a zona urbana de Belo Horizonte foram retificados e canalizados de acordo com os interesses do Poder Público e dos agentes fundiários, que interferiram profundamente na produção do espaço urbano de Belo Horizonte, lembrando que a Rua Padre Belchior não existia na primeira planta da nova capital, ela foi aberta para a canalização do córrego na década de 1920, assim como as ruas Barbara Heliodora e Marília de Dirceu, ambas localizadas no bairro de Lourdes. Esquecidos e indesejados pelo Poder Público e pela população, o anuncio de uma Renaturalização em um curso d'água na região central de BH deixou muita gente perplexa, inclusive o autor deste Blog, que fez questão de ir ao local conferir tal placa.
O córrego do Leitão, segundo moradores da capital que conheceram e conviveram com o curso d’água a céu aberto relatam que chegaram inclusive a pescar nas proximidades de sua foz no Ribeirão Arrudas e nas pequenas lagoas que existiam no seu entorno, tinha suas águas cristalinas, onde os peixes subiam desde o Arrudas, um espetáculo inimaginável atualmente.

O Leitão no final do Rua Padre Belchior na década de 50.
Fonte: APCBH/ASCOM 

O vertiginoso crescimento dos centros urbanos brasileiros após 1945 acarretou inúmeros problemas, no que diz respeito aos equipamentos urbanos, entre outras coisas. Os cursos d’água, por falta de investimento do governo e por conveniência passaram a receber ano após ano os esgotos dos bairros que proliferavam em suas vertentes e cabeceiras. Na verdade desde a inauguração da capital em 1897 os cursos d’água já recebiam os esgotos domésticos, porém em menor quantidade. Para uma cidade criada dentro dos moldes positivistas (e higienistas) que vedava até a aquisição de lotes dentro da zona urbana pelas camadas menos abastadas e pelos operários, a ideia de convivência com os seus próprios detritos era inaceitável, mas a falta de investimentos e a conveniência do Poder Público se sobressaíram em relação à vontade do belorizontino “urbano”, em afastar o máximo possível os seus dejetos.
Com o córrego do Leitão não foi diferente, o emissário construído ao longo do seu curso não comportava mais o esgoto dos bairros que ocuparam as suas vertentes,  e os esgotos passaram a ser despejados diretamente em suas águas, assim como os esgotos clandestinos. É bom ressaltar que os precários emissários existentes em Belo Horizonte não resolviam o problema da contaminação das águas, apenas levava o problema da poluição para fora da zona urbana planejada, quem morasse fora dela que convivesse com os esgotos. O despejo era feito diretamente no Ribeirão Arrudas, da mesma forma que a cidade de Londres resolveria o problema do despejo de esgotos no Rio Tamisa dentro do perímetro urbano no Século XIX, os esgotos eram coletados e despejados no rio, porém fora da zona urbana da capital inglesa, uma interessante forma de resolver o problema encontrado pelos “higienistas”.
O mau cheiro das águas do Leitão e as constantes enchentes que levavam lama e lixo para as ruas eram motivos de reclamações constates da população, que passou a exigir uma solução rápida para o problema. A canalização era vista como a solução dos problemas gerados pelo córrego além de ser considerada como uma obra de embelezamento da capital, abalada com a perda do titulo de “Cidade Jardim” desde o corte dos Fícus da Avenida Afonso Pena em 1963. O alargamento das ruas atravessadas por ele também era pleiteado pela população, a Rua São Paulo, por exemplo, possuía apenas uma pista entre o córrego e o meio fio, causando transtornos para uma cidade que começava a priorizar o veiculo individual nas políticas urbanas.
No final da década de 60 iniciam-se as obras de alargamento e cobertura do córrego do Leitão desde a Rua São Paulo até a sua foz no ribeirão Arrudas. Paralelamente ao fechamento teve inicio em Julho de 1970 a canalização e cobertura do Leitão na zona suburbana para a abertura da Avenida Prudente de Morais. Essa obra visava melhorar o fluxo viário na região que se expandia para as regiões mais altas da zona sul da capital, além de erradicar da paisagem o curso d’água que havia se transformado em um esgoto a céu aberto, pois o aumento da ocupação das vertentes do córrego nas proximidades de suas cabeceiras desencadeou o lento processo de assoreamento que, nos períodos de chuva enlameava diversas ruas ao longo do seu curso. A abertura da Avenida extinguiu a Favela da Alvorada, que existia ao longo do curso do córrego.

Inicio das obras de canalização e cobertura do córrego do Leitão para a abertura da Avenida Prudente de Morais em 1969.
Fonte: APCBH/ASCOM 

Obras de canalização do córrego no cruzamento da Rua Joaquim Murtinho em 1970.
Fonte: APCBH/ASCOM 

Alargamento das galerias do córrego na Rua Bárbara Heliodora em 1971.
Fonte: Desconhecida

Desde então encaixotado, o córrego do Leitão foi legado ao esquecimento até o surgimento da incitante placa, que trouxe novamente à tona o problema da poluição e do soterramento dos cursos d’água de Belo Horizonte e ao conhecimento de muitos a existência de um Rio debaixo dos nossos pés, visto que a erradicação dele da paisagem urbana foi realizada há mais de quarenta anos. Mas o encaixotamento dele e de muitos outros córregos da capital não eliminou a poluição e nem acabou com as inundações nos locais atravessados por eles, pois as águas seguem o caminho determinado pela natureza, e que erroneamente o ser humano tenta interferir, até hoje, ao promover a cobertura do Ribeirão Arrudas ao longo do seu curso e o desaparecimento das várzeas, não só dele, mas de outros córregos importantes para o ecossistema local. A placa é o resgate da consciência de que ali existe um Rio, e que uma convivência harmoniosa com o meio ainda é possível, se assim desejarmos.

A incitante placa anunciando uma revitalização do córrego do Leitão na Rua Padre Belchior.
Fonte: Foto do Autor

Paisagem do arraial de Belo Horizonte em 1894, desde a Rua de Santana.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

A Comissão Construtora da Nova Capital ainda estava se instalando no arraial de Belo Horizonte quando os quadros aqui publicados foram pintados. Pintados por Honório Esteves, artista nascido em Santo Antônio do Leite e conhecido por suas paisagens, alegorias e retratos, que muitas vezes representavam o cotidiano do mineiro, uma característica que se vê em outros quadros pintados no mesmo período no Brasil. Os quadros pintados por ele provavelmente faziam parte do plano da CCNC de registrar a paisagem em desaparecimento, no caso o arrasamento do arraial para a construção da nova capital. Além das pinturas, centenas de fotos foram tiradas de diversos pontos do arraial retratando a paisagem tipicamente rural e a vida tranquila dos curralenses, expulsos do arraial e adjacências quando do inicio da construção da capital. Infelizmente muitas dessas imagens se perderam com o tempo, enviadas como propaganda republicana para promover a nova capital de Minas e incentivar a imigração, tanto interna quanto externa.
O primeiro quadro foi provavelmente pintado desde a Rua de Santana, que ficava um pouco abaixo da Rua da Boa Vista, local onde se encontra atualmente a Praça da Liberdade. Destacam-se a Matriz da Boa Viagem e a Rua de Sabará, a principal rua do arraial, responsável pela ligação deste com a cidade de Sabará. Em primeiro plano pode-se ver uma parte da rua e o cotidiano dos moradores do arraial. Ao fundo o local onde se ergueram os bairros Floresta e Santa Efigênia e a Serra da Piedade, se destacando na paisagem.
A imagem abaixo, retratada desde o Cruzeiro, hoje Praça Milton Campos nos apresenta a quase totalidade do arraial e alguns dos caminhos que faziam a ligação entre ele e as fazendas que o circundavam. A estrada à direita fazia a ligação do arraial com Congonhas de Sabará (Nova Lima), e era na verdade o prolongamento da Rua de Congonhas que se iniciava nas proximidades do Largo da Matriz. A estrada à esquerda fazia a ligação entre o arraial e a Fazenda das Mangabeiras, sendo que a estrada se originava na Rua do Capão. Dessa rua originavam-se também as estradas para o povoado dos Olhos D’água, Mutuca, Lagoa Seca e para as Fazendas do Leitão, Capão e do Cercadinho. A mata ciliar que existiu ao longo do córrego do Acaba Mundo também foi retratada no quando em questão, assim como as Palmeiras Macaúbas, muitas delas derrubadas para a implantação do Parque Municipal. Ao fundo as montanhas em primeiro plano, hoje ocupadas por diversos bairros da região noroeste de Belo Horizonte.
Sem duvida os quadros pintados em 1894 são um importante registro de um arraial tipicamente rural arrasado pelo rolo compressor republicano que vislumbrava a nova capital como uma ruptura com o passado colonial, e mesmo a recuperação dos ideais republicanos evocados por eles e atribuídos a Inconfidência Mineira, a nova capital viria a ser um raio de luz entre a escuridão do período imperial, cujas marcas e representações seriam apagadas ou legadas ao esquecimento. Mas é bom ressaltar que Aarão Reis, sabendo que a paisagem do arraial e adjacências seriam profundamente modificadas com a construção da Cidade de Minas procurou registrar, através das pinturas, imagens e mapas a forma e as peculiaridades de uma paisagem em transformação.  

Arraial de Belo Horizonte desde o Cruzeiro. Ao fundo as montanhas hoje ocupadas por diversos bairros da região noroeste de Belo Horizonte.
Fonte: APCBH Acervo CCNC
Rua São Paulo no final da década de 20 com o canal do córrego do Leitão já concluído.
Fonte: APM

     A Rua São Paulo atualmente é uma das principais vias de ligação entre a região sul de Belo Horizonte com a região central. Aberta somente na década de 20, na primeira expansão ordenada da zona urbana promovida pelo Poder Público a rua teria um papel fundamental na urbs belorizontina: ao longo dos seis quarteirões compreendidos entre o bairro de Lourdes e a região central seria construído o canal destinado as águas do córrego do Leitão, que corria em seu leito natural e retificado para a construção do bairro de Lourdes ao longo da década de 20. Junto com a Rua São Paulo abriram-se também as ruas Barbara Heliodora e Padre Belchior para a retificação do córrego, ruas que não existiam na planta original da capital.

 Canalização do córrego do Leitão em 1928 na Rua São Paulo e Avenida Alvares Cabral.
Fonte: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC 

 Inicio da canalização a céu aberto do córrego do Leitão na Rua São Paulo.
Fonte: APM

 O córrego no cruzamento das Ruas São Paulo e Guajajaras em 1928.
Fonte: APM

 Córrego do Leitão em 1928 na Rua São Paulo.
Fonte: Fundação Getúlio Vargas/CPDOC 

 O córrego na Rua São Paulo no cruzamento com Rua Gonçalves Dias.
Fonte: APM

O córrego no mesmo local após o término da canalização.
Fonte: APM

Parte da Planta de 1923 onde figura o córrego canalizado e retificado para a Rua São Paulo. As obras para a retificação nesse trecho começaram quatro anos mais tarde.
Fonte: APCBH

    O adensamento da região nas décadas seguintes, principalmente do entorno da Rua São Paulo, que assistia a expansão da verticalização da área central para os bairros adjacentes converteu o córrego de águas mansas e cristalinas em um emissário de esgoto a céu aberto, visto que o emissário que existe ao longo do córrego não dava mais conta de transportar tamanha quantidade de efluentes. Na verdade isso acontecia simultaneamente em outras regiões da capital (e ainda acontece) nos inúmeros cursos d’água que atravessam a capital mineira. Isso selou o destino do córrego não só na Rua São Paulo, mas também em toda a extensão do seu curso.


Imagem aérea de 1953 onde está sinalizado o trecho do córrego do Leitão na Rua São Paulo, entre as Ruas Padre Belchior e Barbara Heliodora.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP


    O córrego do apresentava um alto grau de poluição de suas águas. A porção da capital atravessada por ele apresentava na década de 60 um alto grau de urbanização ao mesmo tempo em que se tinha o inicio da ocupação sistemática das suas cabeceiras. O mau cheiro de suas águas e as constantes enchentes que levavam lama e lixo para as ruas eram motivos de reclamações constates da população, que passou a exigir uma solução rápida para o problema. A cobertura do canal era vista como a solução dos problemas gerados pelo córrego além de ser considerada como uma obra de embelezamento da capital¹, abalada com a perda do titulo de “Cidade Jardim” desde o corte dos Ficus da Avenida Afonso Pena em 1963, das árvores das Avenidas Augusto de Lima e Bias Fortes e principalmente para a melhoria da mobilidade urbana². No final da década de 60 se tem o inicio das obras de  cobertura do córrego do Leitão desde a Rua São Paulo até a sua foz no ribeirão Arrudas. Paralelamente ao fechamento teve inicio em Julho de 1970 a canalização e cobertura do Leitão na zona suburbana para a abertura da Avenida Prudente de Morais. Essa obra visava melhorar o fluxo viário na região que expandia a passos largos além de erradicar da paisagem o curso d’água que havia se transformado em um esgoto a céu aberto, pois o aumento da ocupação das vertentes do córrego nas proximidades de suas cabeceiras desencadeou o lento processo de assoreamento que, nos períodos de chuva enlameava diversas ruas ao longo do seu curso, principalmente a Rua São Paulo. Após a sua cobertura em 1970 a funcionalidade da região mudou lentamente, sendo que a grande maioria das casas residenciais que existiam ao longo da rua foram sendo demolidas e substituídas por edifícios e casas comerciais. Atualmente a Rua São Paulo se tornou uma das principais vias de acesso para a região central, o que não seria possível se o córrego ainda corresse a céu aberto.

    O córrego do Leitão, assim como o Acaba Mundo, Serra etc. foram ignorados pela Comissão Construtora e inseridos na paisagem urbana na década de 20 foram “escondidos”, à partir da década de 60 debaixo das vias com a finalidade de melhoria do fluxo viário e do embelezamento urbano. Da década de 70 até os dias atuais o termo “hidrologia urbana” tem sido usado para designar a reinserção e requalificação dos cursos d’água no meio urbano. As formas da paisagem urbana são diversas e, segundo (SANTOS, 1998) “é a materialização de um instante da sociedade”. Na paisagem urbana de Belo Horizonte grande parte dos cursos d’água foram erradicados da paisagem, sendo possível identifica-los atualmente apenas com o auxilio de mapas.

    A sociedade interfere e modifica o meio urbano de acordo com suas necessidades. Inseridos na paisagem urbana devido às necessidades socioeconômicas do período os cursos d'água não resistiram às grandes mudanças no espaço urbano que veio a deixar profundas marcas na paisagem belorizontina. Apesar das políticas urbanas atuais valorizarem a inserção dos córregos não canalizados na paisagem urbana, como um agente concreto que a compõe, em Belo Horizonte os córregos cobertos, ao que tudo indica ainda passarão décadas sob as vias e quarteirões até que se adote uma política de reinserção dos cursos d’água no espaço urbano.  


Casa residencial datada da primeira ocupação urbana ainda existente na Rua São Paulo, às margens do córrego do Leitão.
Fonte: Foto do Autor

A metamorfose do espaço: A calha do Córrego do Leitão em três momentos no mesmo local: À esquerda em 1928 quando foi retificado e canalizado no trecho compreendido na Rua São Paulo, nas proximidades do cruzamento com a Avenida Augusto de Lima. No centro em 1971 quando da cobertura de seu canal para o alargamento da mesma Rua. À direita o mesmo trecho em 2010. 
Fonte: APM, Autoria Desconhecida e foto do Autor respectivamente.




 ¹ O Boulevard Arrudas é um bom exemplo de como as coisas se perpetuam no Poder Público. As mesmas justificativas usadas há 50 anos ainda servem para "explicar" e exaltar as grandes melhorias que tal obra trará para a sociedade em geral. 

² Interessante é que as politicas urbanas voltadas para a mobilidade na capital mineira são praticamente as mesmas há cinquenta anos, sempre favorecendo a determinadas classes sociais que se perpetuam em BH como um vírus, atrasando o desenvolvimento urbano, viário e social e seguindo desconstruindo e derrubando o que se opõe aos seus interesses. Já passou da hora de surgir uma gestão séria, que admita que grande parte das politicas urbanas adotadas na capital desde a década de 50 são péssimas e que favorecem apenas a um grupo especifico da capital mineira, no qual muitos dos administradores que passaram pela municipalidade pertencem.

SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Hucitec, 1988.

Canalização do córrego da Barroca na Rua Mato Grosso em 1928. Ao fundo o córrego do Leitão também em obras de retificação e canalização, a ponte da Rua Tamoios e à direita a pequena fundição de ferro de propriedade do Sr. Hélio Lodi na Rua Rio Grande do Sul, onde existiu um ramal férreo que levava a produção até a linha de Central na Avenida do Contorno.
Fonte: APM


   O córrego da Barroca ou Barro Preto nasce nas proximidades da colina onde está atualmente a Praça da Assembleia no bairro Santo Agostinho. Canalizado e coberto no final da década de 1920 atualmente ele está sob a Avenida Barbacena e Ruas Araguari e Mato Grosso, onde desagua no córrego do Leitão na esquina desta rua com a Rua Tupis.

   As imagens abaixo mostram a canalização empreendida na segunda metade da década de 20, ao mesmo tempo em que outros cursos d’água eram retificados e canalizados na zona urbana de Belo Horizonte (recomendo a leitura do artigo “Qualquer semelhança não é mera coincidência: o destino dos cursos d'água que atravessam a capital”). 

   As canalizações permitiram a expansão da malha urbana da capital dentro da Avenida do Contorno, em uma região que nesse período era ocupada por Favelas e pela Vila Operaria do Barro Preto, extintas anos mais tarde, e sua população viria a ocupar posteriormente algumas áreas da zona suburbana no entorno da Avenida do Contorno.

   Atualmente tornou-se praticamente impossível identificar o curso d’água nos bairros de Santo Agostinho e Barro Preto devido a intensa urbanização empreendida na região, principalmente à partir da década de 60.

Canalização do Córrego do Leitão na Rua Mato Grosso em 1926. Ao fundo a ponte da Rua Tamoios.
Fonte: Acervo MHAB 

Canalização do curso d'água no cruzamento da Rua Mato Grosso e Avenida Bias Fortes.
Fonte: APM 

Local exato da confluência dos córregos da Barroca e do Leitão no cruzamento das ruas Mato Grosso e Tupis com a Avenida Bias Fortes. O individuo em pé em frente a um dos dutos do córrego serve como escala na imagem.
Fonte: APM 

Parte da Planta Geodésica de 1895 onde está sinalizada a confluência dos Córregos do Leitão e do Barro Preto/Barroca.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

Avenida do Contorno e Sub-adutora Redondo/Menezes atravessando o Ribeirão Arrudas (a montante) em 1966.
Fonte: APCBH/ASCOM 

   A década de 60 foi marcada pelo caos urbano em quase todos os setores, desde o saneamento básico até a limpeza de ruas e a coleta de lixo. Quem mais sofria com esse caos era a população de baixa renda, que penava com a falta de água encanada e a coleta de esgoto (houve nessa década diversas epidemias em Belo Horizonte que assolaram principalmente a população carente). A questão das moradias também se agravou e o número de moradores de rua aumentou consideravelmente ao longo da década, sendo que a grande maioria se concentrava nas áreas mais próximas ao centro da capital. 
    Esse período se caracterizou pela grande favelização, talvez proporcionado não só pela metropolização, mas também pelos movimentos sociais que surgiram entre 1960 e 1964, período em que as invasões e ocupação de áreas inabitadas e inabitáveis se espalharam por toda Belo Horizonte, desde morros adjacentes aos bairros até as margens das linhas férreas e as margens dos cursos d’água (recomendo a leitura do subcapítulo “As Favelas da Capital” dentro do Artigo dedicado a Década de 50).
    A imagem acima, feita em 1966 é um dos registros do desfavelamento de diversas áreas promovido pela Prefeitura dentro do Programa Nova BH 66. O local acima, mais precisamente o cruzamento da Avenida do Contorno e Rua Conquista serviu como moradia para diversas famílias, que se abrigavam debaixo da ponte que existiu nesse local até a década de 80, demolida quando do alargamento da calha do Ribeirão Arrudas.


 
Moradores de Rua na margem esquerda do Ribeirão Arrudas em 1966, no cruzamento da Avenida do Contorno e Rua Conquista.
Fonte: APCBH/ASCOM 

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis